Império da Casqueira


O Imperador participará, este final de semana, de missão diplomática oficial em terras nunca dantes visitadas.

Adiantaremos, pois, alguns negócios que seriam publicados nos próximos dias.



Escrito por Benito Barros às 06h32
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Prolegômenos da insanidade (continuação)

 

Estou dolorosamente convencido de uma verdade banal:

a vida é negócio, tudo é comércio.

Comércio, só comércio.

Escambo de misérias.

Nascemos de um pacto comercial e morremos em troca de algo.

Na esperança de mísero troco cremos, amamos, sofremos.

Até imaginar um amor só doação, como se sonha,

tem lá seus propósitos lucrativos.

Nesse universo de trocas,

a manhã que cede à tarde

pouco do calor furtado às estrelas

retém parte do fulgor que a viceja.

A lama sabe ser fruto duma barganha

que lhe garante sua existência de lama,

sua condição de raiz.

Da lama aprendi::

“Da vida sou raiz.

De mim, todo os  seres.

Em mim, todo ser

e ter.”

 

Ai daquele que não enxerga a verdade:

vira poeta

que não reclama (nem poderia!)

ao pobre poema o aplauso salário

em meio à desordem mesquinha

de sentimentos, palavras e gestos usurários.

...



Escrito por Benito Barros às 06h31
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Aqui, recluso na desesperança...

já fui livre  e naveguei

a volúpia ilimitada do ser senhor do mundo.

Quis o mundo em meu poder.

Quis o mar. Quis o ar.

Domei o mar, conquistei o mundo.

Agora, no instante de escrever, sou

Senhor do universo. O mundo é meu.

Dele e nele esparramo-me.

 

No que tomo o mundo em minhas mãos

do outro mundo me afasto

e vejo os homens, da miséria, serem pasto.

 

Impotente e miserável como se costuma ser,

assisti a massacres de inocentes

com nunca vista crueldade(3)

 e fiquei contente.

Era-me indiferente o homem

metamorfoseando-se em rato

não comendo outra coisa, senão

as postas do seu mesmo sangue

que por o buraco da ferida lhe saía(3)

e não lamentei

tristes ais dos meninos,

os suspiros das mães,



Escrito por Benito Barros às 06h30
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o desamparo das donzelas descalças, e metidas por as lamas,

e passarem os rios com pouca compostura de seus corpos,

alheios da honestidade

e recolhimento em que haviam sido criadas.” (3)

 

Depois de demorado mergulho na sordidez,

a alma emerge em meu espelho

(ousaria quebrá-lo?) úmida

de fealdade e azedume

e não me repugna tanto

quanto flor nascida no estrume.

 

Quis a luz.

Minha única loucura.

Por tanto, esta solidão

tão ornada de vis lembranças

que desacostuma de ser solidão,

e esta minha morte chega tão lentamente

que não parece ser uma.

...

(3) O Valoroso Lucideno, Frei Manuel Calado



Escrito por Benito Barros às 06h29
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O medo, deixei-o para trás do sonho.

Sei de sua tocaia adiante, mas não o temo

- já não serei o mesmo depois do sonho,

e, se rebento de sonho, certo destemo.

...

 

Vivi intensamente cada dia.

Sofri intensamente cada dia.

Morri intensamente cada dia.

 

Não sei se amanhã findo, mas - sem pouco me cuidar -

cuido de sê-lo.

Ao imponderável brindo com o precário esticar,

da vida, o novelo.

 

Para tal, incauto e sem fé,

em tempo integral sou chama-maré.

...



Escrito por Benito Barros às 06h21
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As vísceras, um tanto perturbadas

por uma alimentação pesada, no meio da noite,

despertaram-me

envolto por estranho pesadelo.

Nesse pesadelo eu era Deus.

 

Eu sou Deus.

Um Deus, não sei - nem Me compete sabê-lo, porquanto deidade - se bom ou mau. Um Deus muito pouco atarefado, apenas cumprindo seu papel divino. Eu, do que lembro – Deus também esquece - ajo segundo o vulgo espera de um Deus, não que Me importe o desejo infame do Meu mais estúpido invento. Sou o que Eu sempre quis ser. Fiz-Me - como sói a um verdadeiro Deus - exclusivamente da semente da Minha divinal idiossincrasia. Se ao populacho Minha imagem varia - ora terno, ora cruel; benévolo, vingativo; estúpido ou sábio - é só por conta das posições equivocadas assumidas por cada um.

São inaceitáveis e inconseqüentes os juízos acerca dos Meus atos.

Como de tudo tenho ciência, sei-Me irremediável equívoco. Isso, os do barco terreno não sabem, nunca saberão.

Dei-lhes norte, timão e leme, e, ainda me aborrecem com frioleiras descabidas... ora, ora, ora...

Observo-os através da campânula que os cobre. Esse aí de rebenque agitado, retiro-o já. Não, não. Que bobagem! Que seria dos outros, sem o necessário chicote? Demais seria Minha maldade se dele os privasse. Ser humano é temer a morte - os escravos adoram a vida.

E aquele com ares de bonzinho, amofinado no canto, requerendo atestado de santidade... quanta vaidade! Pois bem! Quer martírio? Seja feita a sua vontade. Quanta estúpida vaidade! São podres as vísceras da bondade.



Escrito por Benito Barros às 06h21
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Só os medrosos e néscios querem, a sério, conversar comigo. E os humildes? Como odeio esses otários! Babacas!! São de fazer-Me perder as estribeiras. Danem-se!

E as crianças e os cerebrozinhos (afora a perversidade) irritantemente vazios? Convém logo preenchê-los de asneiras e projetos estapafúrdios. Às escolas, às igrejas, debilóides! Imaginem se Eu tivesse sido educado numa escola religiosa?! Deus Me livre! (desespero tanto que, às vezes, recorro a Mim mesmo como última instância.) Essa história de “vinde a mim as criancinhas”, além de estúpida (quem, de siso, elegeria o convívio desses seres irritantes?) extremamente perigosa.

Como é cansativa a mesmice secular dos homens! Muito Me agrada os que não crêem em Mim. Gosto de brincar com estes. De sacanagem, prego-lhes sustos, vez em quando. Mas há os renitentes a quem devoto o recíproco desprezo: é melhor assim – cada qual cuide de si. Eu e eles.

Arrrrout.. Se meu arroto fede tanto é por conta de minha principal alimentação, fonte inesgotável de Minha energia: a estupidez humana.

Imaginam-me honesto. Por que haveria de ser honesto se a própria Senhora do Tempo, a quem outorguei enorme, mas grata tarefa, não consegue ser?

Há os que, de tempos em tempos, se dizem filhos diretos e Meus legítimos intérpretes. (Um banal exame de DNA bastaria para desmascará-los.) Canalhice maior, por amiúde disseminada, a dos que alardeiam fazer justiça em Meu nome - bela maneira de escamotear dupla injustiça! Outra patifaria de igual monta e igualmente temerária cala nos que se dizem proprietários da verdade. A verdade é um casebre feio e opressor onde habita uma gente feia e mal-educada. No oitão, fico Eu a observar quem dela se aproxima ou nela entra. Cada visitante, se não lhe sobrevém providencial amnésia, transtorna-se, enlouquece.

Por essas e outras menores bobagens, definitivamente, Me tornarei estéril! Quem já não ouviu histórias plenas de vilanias de filhos contra pais? O que pensam ser Eu para insistir nessas asneiras? Sábio, precavido Onã.

Eu sou o Nada metido a Tudo. Eu sou o caos. O incoerentemente caos. O insubordinadamente caos. Os homens, palhaços insossos, inventaram essas brincadeiras de péssimo gosto de leis, ordem... Das Minhas criações a que mais se parece comigo é o vento, ainda que aprisionado nessa redoma. Há também Satã, portador da luz e da graça, que foi admirável em sua maldade: deu-lhes (aos homens) alguma ciência e, quando Prometeu, o fogo, mas não a essência. Daí esse gosto pela escravidão. Mas deu-lhes também – a alguns – a mais terrível das armas: a inveja... de Nós (Eu, o vento e o Diabo) com a qual certos tolos costumam causar, neles próprios, fundos estragos. Para estes, existir é vastíssima insônia - impotência por mobília, desesperança como adorno.

Desse pouco se extrai um único e miserando corolário: o mundo está cheio e, Eu, farto de otários e salafrários.

Mas Eu não criei nada disso que vejo. Por que criaria, sustentaria tudo isso? O máximo que faço é Me divertir e deixar o tempo passar... para os outros.

Essa Minha vida é um tédio.

Existir é-Me um terrível enfado.

Para o Diabo quem Me fez eterno!

Será que não tem fim essa merda de eternidade?

 

Cuidarei de não mais me empanturrar antes de adormecer.



Escrito por Benito Barros às 06h20
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Um bom final de semana admirando a fantástica arte de

Jack Cohan.

 

 

 

 

 

 



Escrito por Benito Barros às 06h19
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Prolegômenos da insanidade (continuação)

 

“Se escrevo ignoro a real razão,

pois vaidade alguma me move.”

Esta é a mais descarada ilusão

de quem no escrever se envolve.

 

Cá estar, alhures permanecer,

toda escrita ao nascer planeja

no andar do tempo sobreviver

- não faz caso de qual pena seja.

 

E se só vale enquanto viva dure

- São Francisco de Assis ou Sade -

o real combustível da escritura

é a tentação da eterna ubiqüidade.



Escrito por Benito Barros às 05h54
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Prolegômenos da insanidade (continuação)

 

Não tens um sonho?

Tenho um sonho!

Escrever o mais belo poema.

Belo como não se possa imaginar.

 

Daí meu sonho irrealizável. Mas tento.

Teima malsã.

 

Procuro um título.

Onde encontrá-lo, senão na Grécia?!

Roubo-o de Teôfrastos, enamorado de Nicômaco:

“Dos sabores, das cores e das carnes.”

 

Toda via como isto he Poesia & fingimento,

& o Autor como poeta,

não pretende mais que ornar o estilo Poetico

não tivemos por inconveniente (1)

fazer urrar, em posição de epígrafe, Santo Agostinho:

“Arrojava-me, derramava-me, espalhava-me

 e fervia em minhas devassidões...” (2)

 

Não, meu poema não traria o fedor de moralismos.

Coitado quem emporcalha seus sonhos de moral.

O sonhar não comporta freios, arreios, chibatas.

Sonhar há de ser sempre ilimitadamente selvagem.

 

Quais palavras usar?

Descarto as de ferro. As viscosas, renego.



Escrito por Benito Barros às 06h02
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Hei de achar as que tenham a consistência dos músculos

dos rapazes em repouso

e tragam o aconchego e a volúpia das nádegas juvenis.

Um vocabulário que se inicie brandamente lascivo

- assim seja todo início -

e vá se acendendo e se transmude em sacanagem

à garra na correnteza do gozo.

 

Cada letra, um sussurro.

Toda palavra, carícia.

Uma trepada, cada estrofe.

Ah! Uma poesia que valha mil trepadas

- e que não as substitua,

pelo amor de Deus!

 

Ainda que se afaste – não morrer, que nenhum morre –

esse meu sonho terá sua utilidade:

me confortará.

Na manhã do fim,

apaziguado, com prazer o relembrarei.

Eu tenho um sonho.

Enfim...

...

(1)      (1) Parecer do censor do Santo Ofício na edição de 1572 d’Os Lusíadas

(2)     (2) Confissões, Santo Agostinho



Escrito por Benito Barros às 06h01
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 Prolegômenos da insanidade (continuação)

 

Avaliou-me perspicaz criança

em talagadas de acaciano desencanto:

 “À distância, as pessoas tornam-se tão pequenas.

Próximas... diminuem tanto.”

 “Tão estéril se apaixonar quanto inútil levar a vida à vera.

Para que tentar o que súbito vem e se vai ligeiro?

Todo novo é passageiro. Salvo o passado, nada persevera.”

...

 

Muito se reclama de minha inépcia para os negócios,

de meu caráter perdulário

e minha vocação para o estéril ócio.

Decidi negar meus críticos: tornar-me-ei capitalista.

Produzir nuvens, um monte de nada e sonhos

- o meu negócio, meu propósito egoísta.

 

Meu maior temor não é morrer ou tudo perder,

é, um dia,  ser obrigado a amadurecer.



Escrito por Benito Barros às 06h03
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O amor é lindo...

 

 

 

 

 

 



Escrito por Benito Barros às 06h03
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Prolegômenos da insanidade (continuação)

 

Exigem-me coerência, vêem-me contraditório.

Coerência – quem a traja? Quem a veste?

Se muito, envergar uns trapos como teste,

mas mantê-la como pele... ao simplório!

 

Se o mundo em minha ostra coube

e a vida entre minhas valvas presa,

sou amo ou senhor, caçador ou presa.

Ser qualquer ou diferir me coube.

 

Quando noite - alvura no asfalto.

Quando sol - coração em basalto.

 

Ser de mim tão diverso faz-me um, sou outro

- o verso do inverso.

A variado me presto: de inteiro me fiz

a sobra da sobra do resto.



Escrito por Benito Barros às 08h28
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Os convidados do Imperador Bena I, O Mais Generoso dos Monarcas, continuam gozando as delícias das tépidas águas da Herdade Imperial.



Escrito por Benito Barros às 08h27
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Membros da Agência Nacional de Inteligência do Império desmascararam mais um agente imperialista ianque. Este, saliente-se, de alta periculosidade.



Escrito por Benito Barros às 08h21
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