Império da Casqueira


Prolegômenos da insanidade (continuação)

 

Uma só vaidade me move: foder a vaidade alheia.

Enrabar todas as vaidades.

Descubro-as feitas de frágeis cus, tão fáceis de serem deflorados...

Traço o plano: lamber-lhes os ânus

acordando em arrepios o desejo de serem penetradas.

(As vaidades, tão ávidas de serem lambidas!)

Em seguida, com o pênis sujo da ironia penetro-as sem piedade

rasgando-lhes os intestinos

guardiões de sua natureza.

Com que deleite a ironia mais se lambuzará dessa natureza!

 

É doce, sublime enrabar vaidades.



Escrito por Benito Barros às 08h23
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Prolegômenos da insanidade (continuação)

 

Anjo meu,

vê: ferve-me o sangue ao te tocar a pele,

no beijar teus seios, na carícia em teu pênis,

no sentir pulsar a mínima cratera do prazer entre o alvo vale.

 

Tu, anjo meu,

que trazes no coração?

Essa vasilha disforme por onde o sangue imundo

vai a depositar as fezes – negras, malcheirosas –

de tuas manhas, traições e da minha ausência.

 

Vê, anjo meu,

o teu coração suja as minhas mãos e me enoja.

Teu cérebro, essa massa esbranquiçada cheia de vazios,

é igualmente sórdido.

Vomito ao vê-los - tua mente, teu coração - igual vomito

em minhas próprias vísceras

quando maculadas e entorpecidas de normas.

 

Agora vem, anjo meu,

quero apenas teus lábios, seios, pênis

e nádegas – como são

doces e cheirosos

quando libertos!!!

 

Façamos sexo do modo que se deve: sem fé, lei ou rei.

Sexo não tem sexo nem lei

- afora a da gravidade que por ela fenece.

E, sendo um de cada,

sexo apenas acontece

qual enxurrada.



Escrito por Benito Barros às 07h24
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Prolegômenos da insanidade (continuação)

 

Eu, o pusilânime,

rasguei minhas veredas

com as adagas e punhais emergidos

no olhar facínora dos traídos.

...

 

Eu, o verme

ciente de ser

vil parcela

da besta insana que somos.

...

 

Chamem-me: “o Inconstante”,

outro nome não tenho

- sou a distância e o instante

entre o machado e o lenho.

Mas resguardo

a tenção da lâmina

e, da madeira,

o desengano pardo.



Escrito por Benito Barros às 06h50
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Arte para o povo.

Annibale Carracci

(1560 - 1609)

 

 

 

 

 

 



Escrito por Benito Barros às 06h50
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Triste Macau.

Foto de Getúlio Moura

Ainda que o pesadelo persista, eu, de minha parte, continuarei sonhando.



Escrito por Benito Barros às 06h21
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Prolegômenos da insanidade (continuação)

 

Eu, o celerado,

estrangulei com as mãos ásperas do ceticismo

as esperanças em seu nascedouro

(quão medonho o berço das esperanças!)

e afoguei no desdém as alheias dores.

...

 

Eu, o apóstata de todas as crenças.

(O Deus das minhas madrugadas morre à luz.

Ele é soturno, ou se faz de ser.

Nunca o vi alegre, dando vivas à vida.

Nunca flagrei um Seu sorriso.

Tal como Ele, não vejo motivo para sorrisos.)

 

O homem se crê feito à imagem e semelhança de Deus.

É essa a maior estupidez:

carece ser enormemente estúpido

para se acreditar criado à imagem e semelhança Dele.

Deus seria tão estúpido?

Por que não imaginá-Lo alimária, essa planta ou aquela pedra

estupidamente esquecida?

Sim! por que aquela pedra não teria sido criada

à imagem e semelhança Dele?

Melhor seria para a imagem de  Deus:

pelo menos aquela pedra não é tão estúpida

para se sentir criada à imagem e semelhança de quem quer que seja.

Ela é só uma pedra e isso lhe basta.

E não toquem nela. Deixem-na em paz.

Em sua divina paz de pedra.



Escrito por Benito Barros às 06h18
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Ontem, a temperatura do Império esteve bastante elevada. Muita gente aproveitou o frescor das límpidas águas do sonoroso rio e do plácido lago que banham a esplêndida Herdade Imperial.



Escrito por Benito Barros às 06h16
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Prolegômenos da insanidade (continuação)

 

Eu, o desesperado full-time, brinquei de insólito mendigo da morte.

Por tal não a renegarei ou pedirei clemência

quando, finalmente, ela resolver pagar minha esmola

e vir mal-educada, aborrecida com a insistência,

feito brutamontes, cada parte do corpo estraçalhando

desarvorada se espraiando.

 

Eu, o assíduo ao centro do zênite da angústia,

despovoado de piedade comigo mesmo

(coisa mais mesquinha, ridícula e desumana o dó de si! e do outro!)

pouco tenho a dizer em minha defesa:

sujo, feio, indigno, vil, porém perverso.

Eis a única alegação em meu favor: a perversidade não latente,

amiúde utilizada.

A perversidade

indica sem restrições minha humanidade demasiada.

Nada natural me é

se uma dose de perversidade

no âmago não trouxer.



Escrito por Benito Barros às 06h31
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Alguns outros convidados do Imperador para a temporada no campo.



Escrito por Benito Barros às 06h30
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Prolegômenos da insanidade (continuação)

 

Intrometo-me na carcaça do meu interlocutor

e não entendo o meu dizer afável:

“Ontem, tratei você mal? Ameacei? Fui tolo? Fui desagradável?

Não cuide do que faço:

o que único fazemos é apressar um pouco o passo

do inevitável.”

Que é o inevitável? De que trata? Quando surge?

Só o nada é inevitável e a ninguém é dado apressar seu passo.

Ele se governa anarquicamente e se compraz enormemente

no brincar com a ilusão da gente.

É inevitável o sol de cada manhã? A lua de cada sonho?

O porto, a vida, a partida?

A vida é inevitável?

A sua vida e a sua morte não terão saídas?

Não?!

Até este não não seria inevitável!

Posto só o reconhecermos depois de concluído,

no que mais podemos crer

afora sua morada no nada

e sua  boba vocação de ser

o que não deveria ter sido?



Escrito por Benito Barros às 07h33
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Com a proximidade do final do ano, O Imperador Bena I, o Libidinoso Campesino, instalou-se em sua maravilhosa Herdade, banhada por caudaloso rio e tranqüilo lago, em busca de um pinheiro rijo e de grande porte digno das exigências decorativas natalinas de Sua Majestade.

Bena I, generosamente se fez acompanhar de vários súditos. E, para a glória do Império e satisfação da plebe ignara, publicaremos, a partir de hoje, uma série de fotos que registram os diversos ângulos da bucólica e comovente paisagem da Quinta Imperial.



Escrito por Benito Barros às 07h31
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Alguns convidados de Sua Majestade Imperial.



Escrito por Benito Barros às 07h28
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Agentes do Serviço Secreto do Império descobriram um agente ianque infiltrado.



Escrito por Benito Barros às 07h25
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Prolegômenos da insanidade (continuação)

 

Significará algo de novo afirmar

“na alma tudo encerra”?

Se tudo contém e nela tudo finda, não será nossa alma

mais que alma, abismo?

Não abismo inferno ou mar,

e mente

quem de sua alma diz mar ou inferno.

A alma é abismo absoluto.

Abismo onipresente e sempiterno.

Onipotente queda.

E sendo minha alma meu barco, um do outro abismo.

De um trazer a queda que o outro sente, cismo.

 

Aos que se comprazem na alheia miséria (e somos todos) eu revelaria

duma paixão incerta,

crendo inútil, em tom despudorado e desafiador:

“O que dela herdei?

Bichos de peçonha e medo a triturar-me a alma

que do desmemoriar lento procriam-se ferozmente.”

Mas no dilacerar o abismo este mais cresce

por ser de sua natureza de abismo

crescer no triturar de outro abismo.

 

Vê, o homem do nosso tempo nada difere do homem primeiro

senão do abismo maior em que se vai tornando inteiro.

Não se pense que trato de religião ou filosofia ou ciência

- nada me dizem além de placebos para incurável doença.



Escrito por Benito Barros às 08h00
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