Império da Casqueira


Prolegômenos da insanidade (continuação)

 

Aos que me lerem nada direi,

tudo está dito.

Sou homem tão igual, trago tudo já escrito

na pele, na carne, no sangue, nos ossos,

na boca ambígua, incisa,

em mãos aprendizes,

nos olhos que ensinam,

no cu, no caralho, na vagina.

Nada que eu mais escreva ultrapassará os limites infindos

da minha humana bestialidade.

Sou os traços de sangue, do doce esperma,

das lágrimas e fezes na memória do corpo doente,

e, se sou o escrito,

nada poderei ser além do já dito.

 

E nada direi aos que não me lerem, a eles não interessam

o que porventura tenha a dizer - do medo para cima -

meu cu, meu caralho, minha vagina.

Tudo foi dito, neles tudo escrito.

Se néscios anseiam mais saber, bastam ler o que neles se gravou!

A esse trabalho não me dou.

 

Além do mais e, enfim, o dizer pouco diz.

Dizer é ponte em ruína, caminho escavacado

onde se oculta, se perde - e se contradizem -

os nacos da verdade e do real esquartejados.



Escrito por Benito Barros às 06h08
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Prolegômenos da insanidade (continuação)

 

Desconsidera as prematuras rugas e cãs;

a boca encovada, os encardidos dentes.

Um dia será somente alimento dos cães

o corpo disforme a definhar velozmente.

 

Mas contempla a vida infame e o jeito bruto.

A dor e a fúria que nos frios olhos rugem

- são os melhores e amadurecidos frutos

do meu proveitoso aprendizado de nuvem.



Escrito por Benito Barros às 06h01
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Prolegômenos da insanidade (continuação)

 

Vem, companheiro, percorramos a rua opaca e triste

aberta à tua curiosidade.

Cá estão: meu braço e meu despojar -

um te servirá de apoio

ante os precipícios que o outro descortinar.

Não temas! Caminharemos com cuidado e vagar.

 

Da árvore de galhos ressequidos e caule exangue

a assistir nosso passeio

não guarde piedade.

Engana-se quem a considere infrutífera -

dá, ao seu tempo, frutos

que se espalham no chão pelo qual caminharemos.

(Meu coração é teimoso e engana tanto quanto o cajazeiro)

 

Pára! Não vale a pena.

Esta minha  íntima alameda é tão-só o intestino enfermo

por onde o que chamam vida doida despenca

rumo ao ansiado termo.



Escrito por Benito Barros às 07h34
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Prolegômenos da insanidade (continuação)

No colo da manhã a vida tarda.

Emergem, súbito, na ilusória calma

engravidada de modorra parda,

recordos duma atormentada alma.

 

Esses ontens que mofinos vêm

em vagas curtas, em trânsito fugaz,

são o estrume e a semente que contêm

a vida amarga, a ausência de paz.

 

A gama de lembranças ora desperta

são setas de veneno adormecido

que no presente ingênuo acerta

o pusilânime passado aborrecido.

 

Mas ao presente já de dor abarrotado,

a dor antiga pouco ou nada acresce:

se renasce, da memória, em chão gretado,

amalgamada à dor de hoje apodrece.

 

Às novas e antigas dores em manada,

o calejado peito prazenteiro agradece:

a padecer o  peito grávido de nada,

a mescla de dores que o peito fortalece.



Escrito por Benito Barros às 06h42
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Ruma



Escrito por Benito Barros às 06h40
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Prolegômenos da insanidade

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia

Cadaver addiado que procria?

D. Sebastião, Rei de Portugal, Fernando Pessoa

 

“Aproveitemos à vontade a única ocasião em que nos é permitido exprimir as nossas idéias íntimas uma vez que eu, nos meus livros, e vós, nas vossas aulas, só podemos oferecer mentiras ao público.”

O Jardim dos Suplícios, Octave Mirbeau

 

Há uma pobreza de tragédia

em nossos naufrágios.

 

Nada se extrema.

A graça se perde em prudência.

Amolecem-se, do sol, os dardos.

Sal ameno, mornas fúrias,

suportáveis os fardos,

infecundos erros,

loucura em desterro.

 

Mais um dia,

mais um dia,

mais um dia

mísero, normal dia.

 

Ferida indolor no rastro

do meditar inócuo.

Que merda de vidinha, essa?!

vácuo, vácuo, vácuo...

 

É hora de partir. Tenho pressa.

 

Ao timão, Baco.



Escrito por Benito Barros às 07h21
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Os anjos. Ah, os anjos!!!

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Benito Barros às 07h19
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04 de julho

 

A América desfila.

Frente a minha varanda dezenas de pardais

equilibram-se ariscos nos fios da posteação da rua.

(Para que servem os fios elétricos

senão para o pouso dos pássaros?)

O terraço donde os miro vira

cais

da toada de tambores e pardais.

 

As aves do sul e do norte

invadem a varanda

e machucam o pouco que resta de são

em minha solidão.

 

Ao brilho turvo do mel barato desses sons que me enfastiam

lanço a contraluz  dum canto antigo em trevas tecido:



Escrito por Benito Barros às 07h08
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“Diz-me lá, fado meu,

depois de tu consumado

saudades terei do hoje eu

ou do depois por ti forjado?

 

Meu rio, a que mar entregas

- se em mar algum terei abrigo?

Será meu correr sempre às cegas

entre o arriscado  e o perigo?

 

Não responda, fado meu,

pois tudo assim perde a graça:

do que a luz, antes o breu

que na mente e peito grassa.

 

Se do passado me afasto

e o futuro de mim se esconde,

gozo no hoje o sem rasto

do que, quem, quando, onde.”



Escrito por Benito Barros às 07h08
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Descansam os falcões, calaram-se os pardais.

E que silêncio, o dos pardais!

A sós: eu e minha varanda.

 

Agora vejo atravessar ligeiro

a paisagem muda

um comboio de sonhos.

(Uns são tristes, outros resistem em falsa alegria.)

Pude ver de negro fio bordado

na fronte da locomotiva

a estação a que seguia:

Melancolia.

Engraçado... Nem bem passado o comboio aparece-me a levitar,

dalgum vagão regurgitada,

uma nau.

Sou tentado a descobrir o que carrega.

Numa escotilha delineia-se uma estátua de sal.

 

É tarde...

Explode, estilhaça a paisagem e me cega

um piar intempestivo de pardal.



Escrito por Benito Barros às 07h07
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Como foram de praia?

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Benito Barros às 07h06
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foto de Getúlio Moura

A Lua era só um cabaré.

Um prostíbulo antigo

onde incendidos amantes

se homiziavam.

A Lua era um bordel.

 

No velho lupanar,

quantos ébrios amores

consumados,

contendas de sangue

travadas?

E os poemas derramados

nos desvãos do chão irregular

onde ainda, decerto, se acha

vestígios de sêmen

santificado na esterilidade?!

 

Vestígios: o que de tudo resta.

 

Cerraram-se as portas

das alcovas encantadas no espúrio gozo

por falta de amantes verdadeiros,

incandescidos amores.

 

A velha Lua

minguou para sempre.

 

Só uns poucos românticos

saudosos gladiadores

no peito ainda estampam

a saudação ao velho rendez-vous:

“Os que vão morrer

      de amor

te saúdam!”



Escrito por Benito Barros às 11h40
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Domingo é dia de praia...

arte de Will McBride

 

 

 

 

 



Escrito por Benito Barros às 11h37
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