Império da Casqueira


No future

              a Marize Castro

 

Cada pétala que cai é uma pétala

                                                    pétala.

Funda ferida em flor cravada.

Malsã.

 

Cada pétala que cai é uma pétala

                                                    pérola

em estéril chão desperdiçada.

Onã.

 

Cada pétala que cai é uma pétala

                                                    lágrima

por fingida dor derramada.

Em vão.

 

Cada pétala que cai é uma pétala

                                                    página

para, escrita, ser olvidada.

Ou não.



Escrito por Benito Barros às 05h11
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Quero descansar.

Descansar da claridade que me aborrece,

da escuridão que não me entristece.

Não me foi dado saber viver

nem, suprema graça, saber morrer.

Minha alma meretriz é eterna e tem vagado

por todos os prostíbulos.

Minha alma, vagabunda prostituta, quer descansar

de ser

comprada, desprezada, espancada, explorada.

Minha alma deseja

e implora aos infelizes que a possuíram

apenas um fim

digno de uma rameira respeitável.

Minha alma operária está exausta

de tanta escravidão à mentira

nesses séculos todos.



Escrito por Benito Barros às 05h31
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Mais alguns eleitos

 

 

 



Escrito por Benito Barros às 05h30
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Representantes de partidos nanicos que enfrentarão a cláusula de barreira.

PAS - Partido dos Alpinistas Sociais

POU – Partido do Operariado Unificado

PVF – Partido da Vara Fina



Escrito por Benito Barros às 05h26
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Por onde anda a criança

que me construiu com carinhos e poesia?

Na minha prazerosa elaboração,

ela fazia poemas com os olhos,

os lábios, as mãos.

Pintava, com tintas antigas,

veleiros que nos transportavam

por sonhos e portos de nuvens.

 

Por onde anda o menino,

meigo menino moreno,

belo menino de olhar grave

e sorrir acanhado?

Riso líquido,

olhos marinhos.

 

Eu, nau.

 

Em qual longínquo sítio

desencontramo-nos

- eu, ele e os sonhos?

 

Eu, náufrago.

 

Por onde anda o menino?

 

E os nossos sonhos?



Escrito por Benito Barros às 05h51
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Alguns dos eleitos nas eleições gerais do Império.

 

 

 

 

 



Escrito por Benito Barros às 05h51
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Deu na TV

“Crime bárbaro: uma mulher foi enterrada viva na lama do rio Potengi.”

Troque-se o nome do rio para “das Almas Prostituídas” e será fácil saber o nome da mulher: Macau.



Escrito por Benito Barros às 05h43
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Siso de sobejo tem minha poeta

ao acusar meu pendor

para esmurrar a escuridão.

Claro está meu atrever-se

a espancamentos na escureza.

Disso, dou provas dia a dia.

Deparo-me, vez em vez, a golpear

eu

ou pedras ou pontas de facas.

Açoitar-se é meu maior valentear.



Escrito por Benito Barros às 05h56
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e la nave va...



Escrito por Benito Barros às 05h55
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Ainda é madrugada.



Escrito por Benito Barros às 04h58
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Rude princípio em que se tecem

as reviravoltas de nossa história:

a lâmina não tem memória,

o corte nunca esquece.

Nas entranhas do corte,

a lembrança do fio da faca.

No metal, a possibilidade

de outros cortes.

Sem remorsos.



Escrito por Benito Barros às 04h57
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Ainda é madrugada. Pela rua esquisita onde moro, o barulhento e interminável desfile de motos e carros transportando a imundície do dinheiro corruptor. É um vaivém incompreensível, injustificado, pois que, na outrora guerreira ilha, a compra de consciências se faz às claras, sem receios e, muito menos, pudores. Debaixo do generoso sol, dezenas de almas prostituídas executam a torpe missão de engrossarem as fileiras das consciências degradadas. Abertamente, despudoradamente. A vileza do ato descarado harmoniza-se com as quantias a serem utilizadas: 20, 30 reais per capita.

Ainda é madrugada. Na cômoda do quarto, procuro uma roupa adequada aos meus anseios de cidadão. É meu propósito vestir uma roupa decente, como o momento exige. Vestes limpas. Vestes com cheiro e gosto de esperança.

Ainda é madrugada e a única certeza a me invadir é a de que não tenho o direito de contribuir para fazer retornar ao governo do Estado aquelas lamentáveis famílias que se locupletaram no poder por décadas.

Na madrugada inquieta, a ânsia de partilhar  e ver realizados os quixotescos apelos em defesa da educação. O sonho de um país revolucionado através da educação. Um sonho.

Amarga-me a alma, a lembrança do lamentável circo eleitoral. Tanta patifaria, tanto cinismo. Poucos, pouquíssimos souberam comportar-se com dignidade. Poucos respeitaram os cidadãos de quem desejam o voto. A maior parte dos candidatos tratou-nos como rematados idiotas.

Ainda é madrugada.

Em meio ao desassossego a pavimentar a estrada do alvorecer, uma outra pequenina certeza intromete-se dolorosamente: não tenho roupa apropriada para o momento.

Visto desilusão.

Ainda é madrugada.



Escrito por Benito Barros às 05h07
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a Bernardo

 

Se embalde cuido

enternecer o coração da cobra  no átimo do bote,

e, estimo magoar de azul o negro charco do ódio

ou de verde ofender o pardacento tédio,

 

não hei de verde ferir-me

nem de azul magoar-me.

Que remédio?!

 

Desalumiado sigo

ao encontro

da cobra em bote vivo.



Escrito por Benito Barros às 05h02
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