Império da Casqueira


A TV Litoral apresentou, ontem, cenas - para não dizer coisa pior - lamentáveis. O prefeito Flávio Veras mandou demolir as barracas das marisqueiras da rua Pedro Lopes de Araújo. Para tanto, arregimentou um exército de servidores da TCL e outro tanto de bajuladores. O próprio prefeito fez questão de assistir aos últimos instantes da brutal e, pelo que se depreende da reportagem, ilegal demolição. Foi pura truculência. Gesto de quem acha que pode tudo e que nunca será devidamente punido.

Enquanto os tratores  demoliam as humildes barracas, o povo protestava, especialmente as mulheres. Algumas, inclusive, xingaram o prefeito. Teve uma que interpretou a situação de forma clara e correta: “Você faz isso pra gente ir pedir esmola na sua casa, para gente ir se humilhar.”, disse ela ao prefeito.

O mais impressionante de tudo, além da crueldade em si, foi a cara deslavada do prefeito, cercado de seguranças, escutando calado os discursos indignados das marisqueiras.

Confesso que, enquanto assistia à reportagem, senti engulhos. Aquela gente desvalida que já sofre demasiado, que sobrevive da cata e beneficiamento de mariscos em situação de miséria absoluta, mas que vive honestamente, aquela gente sendo tratada da maneira covarde como foi tratada.

Passei mal ao imaginar que aquelas mesmas mulheres que ali protestavam talvez tenham contribuído para fazer prefeito - em troca de  alguns míseros reais - a mesma pessoa que as humilha agora.

Repugna-me ser testemunha  da situação a que chegou nossa cidade.

Enoja-me, principalmente, saber que tudo está ocorrendo, da forma como está acontecendo, porque a venalidade tomou conta avassaladoramente da minha cidade.

Venalidade que feriu todas as esferas da sociedade, inclusos aí todos os poderes. Podres poderes.

Pobre Macau!

 

P.S. – Toda tragédia tem seu lado cômico: enquanto transcorria a demolição, deu para ouvir na reportagem, ao fundo, uma voz infantil gritando: “É o rodo!”



Escrito por Benito Barros às 05h56
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O amor é lindo e não pode morrer. (2)



Escrito por Benito Barros às 06h04
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Mais uma importante descoberta do eminente botânico Karl Rahi Dheazza.

Trata-se da terrificus rurum. Além da função terapêutica, convém assinalar suas qualidades estéticas. O paisagismo da ilha muito se beneficiaria da utilização emblemática da citada espécie, uma vez que ela pode, simbolicamente, ser um substituto eficaz para o vulgar rodo.

 

 

 

 



Escrito por Benito Barros às 04h48
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Hão de Cantar à Praça

 

Hão ainda de escrever um belo poema à praça

da Conceição.

Não bastasse o nome, motivos  sobejam:

quiçá a Coluna azulejada em verde e amarelo,

pois não foi erguida sobre fortes alicerces patrióticos?!

(Isso não dá poesia - pode resultar, quando muito,

em hino e estupidez. )

Mas numa bela poesia bem que caberiam

as árvores frondosas: ficus, espinheiros, flamboiãs, acácias...

 

O chão de barro batido ou de malacacheta

onde marchava o Tiro de Guerra

e um recruta feriu o comandante no núcleo da honra

com uma dedada.



Escrito por Benito Barros às 04h18
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A minha infância em meio aos canteiros, quando

o piso de mosaico e mobiliada de cavos bancos cinzas.

 

(Era gostoso sentar naqueles bancos em que as bundas

amoldavam-se bem, e, despreocupado, assistir

ao pachorrento vai-e-vem das gamboas da existência.)

Os casais e outras almas volteando

a distribuírem simpatia.

 

A poesia que li, num remoto Dia das Mães,

aos pés da Coluna.

(Nesse dia, também estreou Isabel,

e, Chico de Pissipissaca teve medo do microfone.)

 

Uma foto... desfilando no Sete de Setembro, vesgo e...

porra! não souberam dar o nó na minha gravata!

(Era o tempo do Duque. Lembram-se?)



Escrito por Benito Barros às 03h58
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Os carnavais.

(Se for bem feito o poema  à praça da Conceição,

eles renascerão.)

Elas, aquelas minhas namoradas

de há muitíssimo antigamente.

(Condenável redundância é se elas ainda existissem.)

 

Mas sobrevivem os cândidos namoros

que não escandalizam quem vai à missa das 8:00,

na Matriz - residência oficial da dona da praça.

 

Sim! As carolas... que bela poesia não se ergueria

com os tijolos arrancados das ruínas dos seus sonhos?!

 

Fazer carreira, tomar impulso e se atirar nos degraus da Coluna, nos dias de chuva.

(Os fortes deslizavam de um lado ao outro. Por pouco não quebrei o queixo,

mas nunca passei da metade, confesso envergonhado.)



Escrito por Benito Barros às 03h46
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Ainda que a cigarreira de Seu Luis Cagão

tenha dado lugar ao carrinho de Zé Caiau,

e, o bar de Seu Augusto

seja só um fantasma,

haverá quem aviste boa poesia

na atual praça agredida

de arcos modernosos

ou nos salpicos de malva-rosa

no piso encardido.

Urge cantar à Coluna um belo poema

antes que ela desabe pela incúria dos  governos

ou pelo carrego das aleivosias dela emanadas.

Ao ruir, como pressinto, ao menos restará a lembrança

dos meninos destruindo os degraus com seus skates

que de lá saltavam para deslizarem  ingênuos

pelas minhas coronárias.



Escrito por Benito Barros às 03h36
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Haverá quem escreva um belo poema à praça

da Conceição

nem que seja para lembrar o engenho

de quem ali plantou

a fálica Coluna.

Deslembrando os argumentos de fé,

que monumento mais apropriado

para um sítio assim denominado?

 

Será mesmo necessário escrever o belo poema aqui

pretendido?

Quem a tenha pulsando dentro de si sabe, no entanto,

que escrever um belo poema

à praça da Conceição

não careceria:

plena de lembranças e meninos ela é

a própria poesia.



Escrito por Benito Barros às 03h30
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Feitio de serpente de bote presto,

entre um salto e outro,

tropeçara em muitas miragens.

 

Descaminhou-lhe

um prazer remoto

e uma dor ausente.

 

Hoje,

despropenso a vigilâncias,

lavrado em descuidos e carências

seu viver desonera fora da loca.

 

Vaga à toa e sem malícia

sob o jugo da contingência.

Nem os sonhos, se ainda os têm,

vivificam o antigo ardor .

 

Não desistiu de viver,

apenas não quer acordo com a vida,

como a dizer:

às derrotas,

resistimos, sobrevivemos.

Às vitórias,

coitados de nós!



Escrito por Benito Barros às 06h50
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O eminente botânico Karl Rai Dheazza, membro da Imperial Academia de Ciências e celebrado discípulo do famoso botânico sueco Karl von Linné (1707-1778), realizou, recentemente, importantes pesquisas nas savanas do Império.

Apresentamos, a seguir, uma de suas  mais importantes descobertas que, certamente, comporá o quadro das grandes contribuições para a fitoterapia. Trata-se de um espécime da nossa flora que poderá ser utilizado, com garantida eficácia, no tratamento de doenças de cunho psicossomático. Já está sobejamente provado a seu poder curativo nos casos mais graves de phallus fallere e como poderoso auxiliar no tratamento da Síndrome de Abstinência  Copulativa. Nos dois casos, a fruta descoberta pelo cientista deve ser aplicada in natura, pelo próprio paciente, na abertura exterior do tubo digestivo, ou seja, no orifício existente na extremidade inferior do intestino grosso.

 



Escrito por Benito Barros às 06h43
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Da imaginação estrumada de angústia

florescem esquisitices.

 

“Ah, se a morte chegasse!

como a água da bica

- lentamente, suavemente -

a encher a cisterna.”

 

Meu caro, não vês a cisterna meã?

 

“Ah, se morte viesse!

como os pingos da chuva

- abrupta, intermitente -

a molhar o telhado.”

 

Meu caro, não vês o telhado úmido?

 

O que temes,

o que ainda esperas da vida?

Para que esperar?

Por que não dar logo a partida?

Adianta, pois, se coragem não faltar,

teu projeto suicida.

 

Se achas, porém, que foste um homem bom

e que alguém chorará tua ausência,

desiste!

Aos bons não é dado dirigir o próprio destino.

 



Escrito por Benito Barros às 05h46
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Adia um pouco se duvidas,

por força de muita indignidade

que até hoje evitaste cometer,

que - em vida - causaste dor, muita dor,

somente dor.

 

De que vale decidir morrer

sem a convicção de termos sido real e cruamente

- pusilânimes, perversos -

homens?

 

Mas aí a vida se mostrará rica e generosa

e já não quererás mais morrer.

 

“Que dilema!

Aos bons não se permite comandar a vida

e aos maus a vida é suficiente boa,

que fazer?”

 

Se queres um conselho inútil:

esquece!

Se queres uma opinião proveitosa:

mata-te!

 



Escrito por Benito Barros às 05h45
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O fim de semana labutando

 

Enquanto a ignara plebe se divertia nos bailes, tertúlias e convescotes, Bena I, o Operoso, trabalhava. Flagramos o Incansável Imperador exercendo, com maestria – inexcedível momento de beleza e graça – o fatigante ofício de catador de mariscos.

Eis o registro da faina dominical do Insuperável Labutador.



Escrito por Benito Barros às 05h46
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Tem cabimento?

 

Muito se diz do enorme número de obras a serem realizadas pela municipalidade. Já dissemos aqui da nossa suspeita de que se venha realizar alguma obra absolutamente prescindível para o momento. Há uma carência enorme de ações nas áreas da saúde e da educação. Precisamos, por exemplo, de um pronto-socorro decente e de, ao menos, uma escola que mereça este nome. O pronto-socorro atual tem uma estrutura precária, e, as nossas escolas são meros agrupamentos de salas de aula.

Para nossa tristeza, ficamos sabendo, ontem, da primeira grande intervenção “urbanística” do atual governo: a reforma da casa do ex-chefe de gabinete, na avenida do Centenário.

Pretendem, segundo me disseram, reformar o atual prédio da prefeitura, e, aquela casa serviria para abrigar provisoriamente - enquanto durassem as obras - os servidores municipais que hoje ocupam o “Palácio João Melo”.

É realmente necessário gastar dinheiro com o prédio da prefeitura? Até onde sabemos e podemos ver, este edifício goza de excelente saúde e não está a requerer serviços. Então, por que gastar recursos importantes com a sua reforma? Não há outras coisas mais importantes e urgentes a serem feitas?  Pobre ilha!



Escrito por Benito Barros às 05h45
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Antes de sermos sereno

 

Vem, navega por todas as veredas do meu corpo

até se perder nas entranhas mais profundas.

 

Vem, desliza afoito

no voraz mar que me envolve

e, quando submerso,

nos recônditos abissais

faze refulgir o berço do prazer

para retardar o ocaso que se avizinha.

 

Vem, enquanto há trilhas a serem caminhadas

e mar a navegar.

Vem, enquanto for possível se perder

e naufragar.

Vem, enquanto me guardo sedento.

 

Apressa-te!

 

Depois,

seremos apenas relento.

 



Escrito por Benito Barros às 05h43
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O amor é lindo e não deve morrer... (1)

 



Escrito por Benito Barros às 10h52
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Flamboiã

 

Como são frágeis e ridículas as flores

que não se sabem efêmeras

e precipitam-se em tolos sonhos.

Como são frágeis e ridículos os sonhos

grávidos de  flores efêmeras.

 

Todo ridículo o é por não se saber efêmero.

Como somos ridículos, meu flamboiã!



Escrito por Benito Barros às 06h05
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