(Boa romaria faz...)
À margem do desespero,
num esquisito assomo de amor-próprio,
cismei de trucidar a angústia.
Espetei-lhe a goela
com as poucas felpas de boas lembranças
e a levei, para o serviço ser completo, a passear.
“Você está muito saída, muito espaçosa,
não pára de se intrometer e abarrotar minha vida.
Vou levá-la para tomar um belo banho
ao sol de Camapum.
Quero você humilhada, diminuída naquele sol,
naquela água, em meio àquela gente...
por lá mesmo eu me desfaço de você.”
.
Não entendi, mas notei malícia
em seu mal contido sorriso.
Ninguém percebeu quem me acompanhava:
estavam todos deliciados navegando
as radiações domingueiras de Camapum.
Se alguém também tivera idéia semelhante a minha
era-me impossível notar, posto que isto é natural
quando se permite tanto enxerimento da angústia.
E, no meu egoísmo alucinado, imprudente
deixei que ela me levasse para o mesmo bar,
à mesma mesa.
O quanto sou otário, estúpido!
Veio-me à lembrança aquele seu sorriso
que escondia a paisagem
e que você levou
junto com meu sossego.
Deixo Camapum.
Na garganta, o travor das coisas amputadas.
E a minha angústia?
Ah!, Ela está aqui,
agigantada,
olhando pra mim,
sorrindo
e arrotando triunfo.
Eis a desgraçada a debochar-me
enquanto escrevo.
Escrito por Benito Barros às 06h06
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