Império da Casqueira


AS MIRAGENS

                        DANILO (Aderbal de França)

 

O panorama das salinas torna maravilhosa a cidade de Macau, bem perto da última visão da ilha quasi lendária de Manoel Gonçalves.

Tenho na memória os detalhes do meu último passeio, numa bella manhã de sol, pelos recantos serenos que há muitos annos os meus olhos não viam.

Subindo o braço do rio, sinuoso e estreito, a vista do visitante se perde nas cruzes pardacentas dos baldes, nas brancura dos crystalisadores, nas estradas de pau e de folhas de carnaúba à beira dos aterros, onde as pilhas se multiplicam na sua geometria correcta e firme.

O desconhecido curioso deixa a embarcação e pisa a terra escura das salinas. O vento, em fúria, tenta fazel-o recuar. Elle, porém, continúa a andar pelos passeios estreitos das quadras que o liquido salgado cobriu para se formaremas alvas camadas de sal. Olha para o horizonte e saltam-lhe à vista as miragens – um grande mar ali perto, um immenso lago no desenho verde dos mangues.

Elle tem vontade de se aproximar, de ir mais perto, de sentir a mentira do quadro fabuloso.

Avança um pouco. O mesmo mar tranquillo, fugindo, fugindo, fugindo sempre...

O visitante olha embevecido e desconsolado. E pára. Contempla a maravilha que se extende pela terra milagrosa... E volta a vista ao redor. Em torno delle movem-se os trabalhadores. Desmancham e refazem pilhas. Além das casas despersas dos velhos motores, as portas dagua, os tanques, as cercas, os chocadores, os flocos de espuma esparsos nas margens dos crystalisadores cheios e serenos.

É uma recordação boa, a das salinas! E porque, vindo agora do rumor costumeiro desta cidade, que se torna elegante aos sabbados, na hora das últimas compras, venho recordar a quietude impressionante das salinas e das suas miragens?

Os caprichos desta vida tornam os homens que escrevem em extravagantes paradoxos sentimentaes. Si eu fosse dizer alguma coisa da cidade... Ella estava tão bonita que eu me lembrei das miragens, daquellas visões serenas que enchem ao longe os olhos da gente para um desejo que não pode nunca ser satisfeito...

JORNAL A REPÚBLICA  - Coluna SOCIAES- 09/05/1936, p.12

 

Texto enviado por Giovana Paiva. Mantida a grafia original.

 



Escrito por Benito Barros às 12h29
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O fâmulo Juvenal, o Escroto, o mais consciencioso agente da Abimba, (agência de inteligência do Império) ao quebrar muito conscienciosamente os sigilos bancários, telefônicos, sexuais  e derivados do Camarada Guerra, declarou à imprensa oficial ter encontrado documentos sobejamente comprometedores de ilícitos subversivistas do Camarada.

Para prová-lo, o fâmulo Juvenal, o Diligente, repassou a imprensa imperial uma das mais incontestáveis provas já colhidas por um serviçal da Abimba. Trata-se de um curioso reclamo feito por uma ancestral desses pastores evangélicos que concorrem direta e fraudulentamente com o Professor Ferreira - aquele “que cura aids e até bicho-de-pé”.

 

O mais interessante deste anúncio da provecta Irmã Iracema, e que impressionou vivamente O Mais Benevolente dos Imperadores, é a última observação.

Sua Majestade, Augusto Mandatário deste Vasto Império, o Sol Que Brilha Sobre Todos Nós,  aplaude a brilhante iniciativa  de Irmã Iracema  de conclamar àqueles que porventura achem que o "velho" já não tem serventia,  a darem um fim nobre ao "castigado".

Para alardear tão auspiciosa iniciativa, fica intimado, portanto, o nosso Embaixador em Urucu (atentem para a rima) a cometer uns versos - nos moldes dos que proclamavam a arte de Elesbão - a partir do sonoroso  mote: “Não jogue fora, dê a um amigo.”

Relembramos, a seguir, os maviosos versos do Nosso Embaixador em Urucu acerca das habilidades artísticas de Elesbão:

Se você tá precisando/ pro sapato de pintura/ e no couro uma costura,/ Elesbão põe com cuidado./ Mas se você tá cansado/ de sentar num piru,/ e já passa um jerimu/ por onde não se orrota,/ passe lá que Elesbão bota/ uma meia-sola em seu cu.

Nota: Ao ser questionado sobre a quebra dos sigilos do Camarada Guerra e a entrega do material à imprensa, o fâmulo Juvenal, o Fela, se defendeu: “  A Abimba é pra isso mesmo!” Orgulhoso de seu trabalho, cantou o hino da agência, e, deu por encerrada a entrevista, gritando apoplético : “Viva a Abimba!” O nosso Embaixador em Urucu fez coro: “VIVA!”

 



Escrito por Benito Barros às 02h51
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O outro cemitério de Highgate.

 

A antiga e antes venerável sede do PCB em nossa ilha, já serviu de templo da Igreja Universal e, hoje, abriga um supermercado.

Onde Seu Floriano tinha uma farmácia, hoje, o Rei da Punheta pastora um negócio evangélico.

Enquanto isso, o valoroso companheiro Guerra se vale dos préstimos da Irmã Iracema.

Proletários de todo o mundo, uni-vos!



Escrito por Benito Barros às 08h58
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HEINE

 

Com os seus olhos azuis,

Você navega o meu ser.

Viajo nos desvarios,

E não sei o que dizer.

 

Esses seus olhos azuis

Vão comigo aonde eu for.

É um mar de idéias de céu

Grande e aberto ao meu amor.

                                 (trad. Décio Pignatari)

 



Escrito por Benito Barros às 05h56
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Pedra de mil estrelas

 

Esplendem mil coriscos

na pedra crua que me deste.

Na pedra nua que me deste

fulgor de faíscas em festa.

 

Pedra de mil estrelas,

pedra do muito sonhar,

de setas vivas, ligeiras,

de meu peito encantar.

 

Guardarei a pedra que me deste.

Ela, útero, há de me guardar.

A brasa deste brilhar celeste

em noturno peito há de queimar

 

Na crua pedra que me deste,

ardente fogo da solidão.

O ser sem medo se veste

de labaredas da criação.

 

Pedra de mil estrelas,

pedra do muito sonhar,

de setas vivas, ligeiras,

de meu peito encantar.

 

Faiscância sangüínea

no coração do nordeste

de mil adagas ardentes

na pedra que me deste.

                             (continua)



Escrito por Benito Barros às 05h30
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(continuação)

Brilhosidade divina,

rutilância de satanás,

fogo da pedra imã

no deserto peito cais.

 

Coração, pulmão do sertão.

Marulho do estrondo inicial

espraia-se no agreste chão...

aguilhão da fome - fogo e cal.

 

A pedra bruta, bruta

de luz e claridade.

A pedra só, absoluta

campa da vaidade.

 

Vem do olhar sedento

o seu externo brilhar.

Dentro, bruto elemento

- fome e sede e largar.

 

Pedra de mil estrelas,

pedra do muito sonhar.

De setas vivas, ligeiras,

de meu peito encantar.



Escrito por Benito Barros às 05h28
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RACHAS

Atendendo solicitação do companheiro edil.



Escrito por Benito Barros às 10h49
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Flor do Lácio, inculta e bela

Na Bunda (José Horácio de Góis) para Seu Pedro Sapateiro

- Fui vaqueiro de seu Pedro/ quatorze anos e um dia./ Já comi a mulher dele/ e também comi a fia;/ só não comi o cu de seu Pedro/ porque ele já corria.

                                                       xxx

Formigão – desafio numa festa com seu Pedro Bem-Feito (Pedro Batista de Andrade):

Seu Pedro:Se o mundo fosse uma rosa/ e a gente não morresse;/ se o mar fosse de cachaça,/eu queria ser um peixe.

Formigão:Eu tando mais seu Pedro,/ seu Pedro tando mais eu,/ eu vou no cu de seu Pedro,/ seu Pedro não vai no meu.

Seu Pedro: Cê né besta não, sujeito?!  vá no cu do diabo!

xxx

Formigão:

Minha mãe quando eu morrer/ me enterre numa gaveta,/ deixe minha mão de fora/ pra bater uma punheta/ e faça o teto do caixão/ do couro de uma buceta.

xxx

Severino Ferreira, contando a chegada de um cantador no inferno:

O Cão: Como vai Pedro Sapateiro?/cantador de Macau,/ com a voz de bacurau/ainda diz que é violeiro?

O Cantador: Seu Cão, esse companheiro/ anda lá pelo agreste,/ já faz cem anos que canta/ e não faz um verso que preste.

- Como é que vai João das Redes,/ ainda bebe muita cana?

- Seu Cão, aquele sacana,/ nem bebe mais e nem glosa;/ deixou a negra sebosa/ e caiu lá no pé-de-muro/ e quando se levantou,/ armou-se de canivete./ Foi o bebo mais sem futuro/ que já deu no Mata-sete.

xxx

De Afonso Barros:

Mote: Seu Manuel (Manuel Vicente) toma cachaça/ Tira o gosto com caju

Glosa: Pratica sempre arruaça,/ Quando ingere a bebida,/ Para alegrar sua vida,/ Seu Manuel toma cachaça;/ Com uma rameira se abraça/ Tira a roupa fica nu,/ Querendo botar no cu/ Da infeliz desgraçada,/ Depois toma uma bicada,/ Tira o gosto com caju.

 

Mote: Seu Manuel vendo boceta/ Lambe os beiços, fica rindo

Glosa: Roda como carrapeta/ Não respeita nem a gente,/ Fica deveras contente/ Seu Manuel vendo uma boceta;/ Seja branca, seja preta,/ Diz logo: eu não prescindo,/ Fica todo se bulindo/ Solta gostosa risada,/ Vendo boceta pelada,/ Lambe os beiços, fica rindo.

 

O grande repentista Chico Cotó (de boné) abraçado por um admirador anônimo.



Escrito por Benito Barros às 06h11
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