Império da Casqueira


cena urbana

 

A comida dos porcos na carroça

e seu aroma acre de vida.

 

Minha alma gaivota sobre a cidade

em fuga dos teus olhos forrageiros.

 

Na feira, os meninos de frete.

Em carros de mão transportam pacotes

do povo cansado.

Os frágeis corpos dos meninos da feira não cansam.

Tão fortes, são belos os meninos de frete.

 

Quase tudo têm, os meninos da feira.

 

Falta-lhes apenas um

Kaváfis.

 

A impotência grassa em mim.

 

Uma ferida tamanha só se sara

em ferida maior:

abandono-me no triturar dos teus olhos.

 

 A gaivota é morta.



Escrito por Benito Barros às 07h21
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Príncipes da Casqueira III

A really tough guy

doesn´t find another guy

beautiful



Escrito por Benito Barros às 06h46
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Flor do Lácio, inculta e bela

De Sebastião Medeiros, velho estivador que gostava de falar difícil, para sua filha:

- Disseram-me a mim que você me anda me pegando na saratoga do filho de Amaro do Valle.

...

 

Morreu Luís Olegário. Desconfiados da notícia, três companheiros, que estavam em um bar, pedem a  Gariba (Garibaldi) para conferir. A viúva informou a causa mortis: enfarto do miocárdio.

Ao retornar, Gariba  satisfez a curiosidade dos companheiros de mesa:

- A viúva disse que tinha sido um fato que ele comeu no mercado.

...

 

-  Seu Chico, Neco tá vadiando franco em Areia Branca

Chico Ciriaco, orgulhoso das peripécias do filho Neco:

- Puxou ao velho, puxou ao velho...

- Mas é com a bunda, seu Chico.

- Puxou à puta que o pariu!

...

 

Cabo China  desistiu, a meio caminho da delegacia, de levar preso “Na Bunda”  quando ouviu populares comentarem : “Eita, lá vai cabo China levando “Na Bunda!”

...

 

Seu Luís Xavier comemorava o nascimento do seu filho Rui. Major Emídio, aboletado em sua cadeira de balanço na calçada de casa, avista seu Luís:

- Compadre, é verdade que você colocou o nome do grande Rui Barbosa no seu filho?

- É verdade, major.

- E se ele der pra burro?

- Eu mudo pra Emídio.

 



Escrito por Benito Barros às 06h00
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da criação

 

- Não sou ateu, apenas

atraquei no mundo

errado

extemporâneo.

 

Não sou ateu e errado

é o mundo

vencido

que não é o meu.

 

Aliás, não nos damos muito bem.

Deste mundo só me interessa o desengano

emprenhado, das pedras, no bojo

e unicamente me prende

o efêmero do fogo.

 

Poderia crer-me ateu

- indaga ingênuo -

se outros mundos crio eu?



Escrito por Benito Barros às 05h36
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RETRATO DE MACAU

DANILO (Aderbal de França)

 

O canto dos gallos despertou a cidade. O rio tremula, estendido sobre os bancos de areia. Os mangues se desenham na quietude das gambôas. O panorama das salinas é um milagre da terra. Os pescadores que pescaram no deserto da noite vêm vindo. Passam pelas embarcações paradas. Barcaceiros se movem nos primeiros serviços de bordo. Homens estendem na água rêdes curtas de pescar. Esperam que o peixe venha engulir a isca que o anzol levou. De vez em quando o assobio de um marítimo na quilha de uma barcaça.

Meninos passam conversando alto. Homens atravessam para o cáes. Os carregadores de água transitam. Os galões pesando nos hombros de homens e meninos fazem o rithmo apressado da marcha. Os barris rodam nas cordas. Tilitam as latas pelas ruas. Os animais carregam água para abastecer a cidade. O sol começou a subir, clareando e aquecendo.

A primeira agitação do trabalho. Terminou a missa. Os meninos das escolas passam. Passam as boinas e os uniformes azues. A brancura das salinas impressiona. As rodas grandes dos moinhos se movem. O tanque público é uma grande colméia. A poeira começa a correr com o vento. As orlas dos mangues estão pontilhadas de garças do Lagamar. As gaivotas passam voando sobre a largura da barra. Os braços longos do rio cortam a terra maravilhosa do sal.

O movimento das ruas já começou. O mercado, ao centro, agita-se na procura das compras. Nove horas, Onze horas, Meio dia. Um sol vertical domina toda a cidade. É a transição da sombra. A ventania. A poeira. O calor. Há como que um amortecimento em tudo. Pouca gente nas ruas. O dia vae correndo, correndo...

Mais tarde, o pôr do sol. Maravilha de cores do infinito espalha-se pelo horisonte. A igreja está aberta para a benção de Deus. Hora do passeio, das conversas, dos encontros, do bar, dos treinos de bicycletas e de foot-ball. As moças sorriem nas janellas. São graciosas, bonitas, joviaes. Algumas parecem que têm saudades do Rio, de São Paulo, de Minas, de Pernambuco. Mas o occaso continua manchando de vermelho o lençol amarellento do rio. Vae escurecer...

As primeiras sombras envolvem as embarcações, as quilhas, os mastros, os mangues, os prédios, as ruas. O immenso acampamento das salinas está quieto. As gambôas desapparecem. Vem vindo aos poucos o luar. Enche a cidade de uma nostalgia deliciosa. O cinema começa a lembrar os romances de amôr. O cinema é bom e é mau ... Deixa alegria ou tristeza ... Hora de dormir ou velar. Tudo fechado. Lá adiante, gyrando sempre as suas faixas de luz, está o pharol de Lagamar, sentinella de Macau, que se recolhe...

 

JORNAL A REPÚBLICA -12/11/1936, p.32 – Coluna SOCIAL

...

Texto enviado por Giovana Paiva, mantida a grafia original.

 

 

 



Escrito por Benito Barros às 05h24
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Há só dor e suor em meus poemas

faiscados no fremente bater

da talhadeira vária da arte

na pedra agreste da memória.

 

Meu ofício tem tudo de pedreiro.

Insalubre lida.

 

Há só dor e suor em meus poemas

emprenhados no dorido coito

entre o prodigioso falo da arte

e a bruta gruta da memória.

 

Meu ofício tem tudo de temeroso.

Perigosa lida.

 

Nesses dias aposento-me por invalidez,

tão pérfida a matéria-prima

- cascalho soez -

dissimulada na rude rocha, 

na soturna vagina.

 

Os meus poemas

também de calcário volátil do fictício

os alicerço,

mas na argamassa se enxere o vivido.

 

Melhor sina,

a dos verdadeiros barcos

naufragados que desmemoriam

a caixa torácica dos cavernames

na fatal sobrevivência das cracas.



Escrito por Benito Barros às 07h01
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É INFÂMIA DEMAIS!

Certo dia, uma estudante perguntou:  “A biblioteca do Campus tem algum livro de William?”

- Que William?”

- “Aquele escritor de ‘Romeu e Julieta’.”

Pois bem, quando penso em tratar das coisas de nossa ilha,  a primeira coisa que me vem à cabeça são os versos de Antônio Frederico, talvez o nosso maior poeta, que, no próximo ano, completaria 160 anos:

“... Mas é infâmia demais!... Da etérea plaga

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo”

É verdade! Macau tem sido vítima de cotidianas infâmias.

Primeiro, da parte do Judiciário ao permitir que um indivíduo, cujos direitos políticos foram cassados, pudesse participar de uma eleição, como se a ação deletéria praticada por este candidato na eleição anterior não estendesse suas conseqüências à eleição posterior. Convém salientar que, em audiência no TRE, houve a confissão da culpa (admitiu-se descaradamente a compra de votos) por parte dos representantes legais do candidato. Além do mais, para que serve o instituto da cassação?

Depois, ao protelar demasiadamente a solução para o  caso de nossa cidade, o Judiciário permitiu que se abrisse um enorme hiato de interinidade que, por sua vez, propiciou aos governantes temporários utilizarem, por mais de 10 meses, a máquina pública municipal principalmente para fins eleitoreiros, quando não, com outros propósitos tão ou mais danosos. A verdade é que, até hoje, ninguém teve a hombridade de vir a público informar onde, como e em que foram gastos os milhões de reais arrecadados pelo município no ano passado. O que se sabe, o que se tem notícia leva-nos à triste suposição de que “passaram o rodo” – para utilizar uma expressão bem ao gosto dos que estão no poder-  com uma desfaçatez sem precedentes.

A demora em agir, por parte do Judiciário, ademais, é o alimento mais substancial para o sentimento de impunidade e, conseqüentemente, um considerável estímulo à prática de mais e mais delitos. O raciocínio é simples: se não há punição, por que parar por aqui?

Ora, se uma pessoa condenada não é punida devidamente, por que essa mesma pessoa impor-se-á freios? A impunidade - todos o sabem - elastece os limites da prática delituosa. Dilatam-se as fronteiras do “tudo é possível”. E, não está sendo diferente em nossa cidade.

Há dias denunciei a trama que estava sendo urdida, nas salas e corredores da prefeitura, contra a Maternidade José Varela. Por vindita contra Zé Antônio estavam tramando fechar a Maternidade. Naquela época, afirmei que todos os parentes do ex-prefeito haviam sido excluídos e que não mais prestavam serviços àquela Casa. Um leitor corrigiu-me, afirmando o contrário. Aceitei a corrigenda e pedi as desculpas necessárias. Hoje, passadas pouco mais de duas semanas, chega-me a confirmação de que Dra. Célia, Dra, Celeste e Dr. Dailor não mais trabalham na Maternidade. Apenas Zé Antônio continua trabalhando ali. E, o pior!, a prefeitura ainda não pagou a parcela, correspondente ao mês de fevereiro, do convênio com aquela instituição.

A pessoa que me admoestou, negou peremptoriamente a existência da trama que continuo a denunciar. Se aquela pessoa queria defender o governante do dia, então, pergunto: por que o prefeito interino não  assinou o convênio com validade de um ano, como está previsto no orçamento municipal? Por que ele só o  fez, e a mando de quem, para ter validade até o dia 16 de fevereiro? Qual era a intenção?

Os  que querem a destruição da MJV sabem quantas cirurgias já deixaram de ser realizadas? Quantos exames já deixaram de ser feitos? Quantas pessoas já deixaram de ser atendidas?

Os que desejam o fechamento da MJV saberão, por acaso, o que esta instituição significa para nossa cidade? O quanto ela é importante para o nosso povo?

Os que pensam em acabar com a MJV nunca se beneficiaram dos serviços ali prestados? Suas esposas e filhas nunca precisaram da maternidade? Nunca recorreram aos médicos, hoje, afastados?

(continua)



Escrito por Benito Barros às 07h51
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(continuação)

 

Uma pessoa me fez o seguinte comentário: “O que eles querem mesmo é que Zé Antônio se ajoelhe, se quiser que a prefeitura continue com o convênio”.

Essa afirmação me leva à seguinte questão: se Zé Antônio tiver um mínimo de dignidade e não for se humilhar ao atual prefeito, o povo pagará com o fechamento da Maternidade? A ser verdade aquela afirmação, estamos diante de uma mesquinhez sem tamanho: condicionar a existência da Maternidade – uma necessidade, uma obrigação- à submissão política de uma pessoa. Isso é sordidez política, para dizer o mínimo.

Mas, de tudo isso, tenho apenas uma certeza: enquanto eu tiver forças, lutarei para impedir que fechem a Maternidade, porque sei o que ela representou e ainda representa para a nossa cidade em seus quase sessenta anos de  existência, e, principalmente, porque amo demais esta terra, diferentemente dos que não têm nenhum vínculo afetivo com Macau e que aqui chegaram apenas para usurpá-la, ou, aqueles que, embora tenham sido criados por aqui, nunca demonstraram, na prática, mais do que a ganância em se apropriar privativamente dos recursos públicos.

xxxx

 

O Diário Oficial do Município nº 189, de 01 de março de 2006, traz o Decreto nº 1440/2006 que “proíbe temporariamente a autorização para a prestação de horas extras e suspende o pagamento de gratificações, até ulterior deliberação, e dá outras providências.”

À primeira vista, pode-se imaginar que este decreto tenha função moralizadora. Ledo engano. A farsa fica clara quando se lê o parágrafo único do art. 1º. Diz lá: “ as exceções... deverão ser tratadas diretamente  pelo titular da Pasta com a Autoridade signatária do presente Decreto.”

Ou seja, cortaram as gratificações e horas extras somente para que o interessado se ajoelhe perante o prefeito. Primeiro tem que se humilhar.

Só um lembrete: pagamento de hora extra não é benesse, é obrigação.

 

xxxx

 

Por falar nisso, será verdade mesmo que algumas pessoas estão trabalhando sem remuneração para garantir um cargo comissionado no futuro? A que ponto de degradação nas relações entre o poder municipal e os cidadãos querem nos levar?

Eita, rapazinho pra gostar de humilhar os outros!!!

Já que estamos falando de escravidão, lembramos mais uma vez o grande Antônio Frederico:

“Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, senhor Deus!

Se é loucura... se é verdade

Tanto horror perante os céus...”



Escrito por Benito Barros às 07h45
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