- Ao inferno todos
os infernos
na dialética lenta da fumaça
do cigarro.
Desavezei-me
de colher o pão diário
nas entranhas
da fúria.
A Grécia, pelo caminho
por onde despacho todos
os infernos.
À minha frente,
chamando-me, incentivando-me, guiando-me,
a certeza da inutilidade.
Chicoteando-me as costas,
as tantas traições
e as lágrimas insinceras das carpideiras
onipresentes.
- Quando no caminho ao pó,
por companhia, nada
a estimular retorno.
A alma é pequena,
a vida menor.
Vale a pena
o pó findo pó?
- Por que o jeito desinfeliz, meu caro?
A vida intensa
se
tormenta
a alma imensa
se
serena
(continua)
Escrito por Benito Barros às 09h11
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(continuação)
- Eu não sou infeliz:
desgraça alguma abateu-se sobre mim,
exceto a vida.
- Relaxe, companheiro.
Essa velocidade, essa carência, essa danada tibieza,
as ausências têm prazo: o da tua vida.
Se queres viver de vera, esquece
e mergulha louco no contingente
vertebrado de pretéritos e amanhãs
e saboreie, como perfeitos, os crimes,
e, do futuro, goze a fatal impunidade.
Vê, minha bateira é tão frágil...
Minha bateira está preparada, entanto,
para cruzar o Letes.
- Eu sou homem. Daí eu amar.
Daí eu detestar quem não ama o inferno.
Quem não trata com carinho os infernos.
Quem despreza os infernos.
- Quem de abismo se faz,
a dor
desteme.
- E se te iludem doces veredas,
parvo ser, acautela-te:
o amor, o verdadeiro amor, agasalha-se
na doce baba
dos cães raivosos.
- Devassidão, de vento em popa, faz célere navegar-me
o câncer pelas gamboas do corpo
rumo à alma mar.
- O câncer jamais alcançará tua alma.
Em ti, o câncer trilha caminho inverso.
Escrito por Benito Barros às 09h10
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Estadista
Sobre os serviços de saúde do município - corre na cidade a notícia de que uma parturiente teve que se delocar para Natal para dar à luz, por absoluta falta de médicos em Macau. Não conseguiu. Teve a criança em João Câmara. A que ponto chegamos. Vivas ao grande estadista!
Escrito por Benito Barros às 13h11
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NOTÍCIAS DO LOBO
O vento uiva em minha porta.
Traz-me notícias do lobo
perdido e faminto
nas florestas da infância...
Horácio Paiva.
Escrito por Benito Barros às 08h15
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UM ESTADISTA
O atual prefeito de Macau tem se revelado um primor de estadista. Engana-se quem o tenha na conta de um bosta, um reles bostinha que faz tudo o que o prefeito cassado-eleito manda. Ilude-se quem o considere um abjeto pau-mandado. Pelo contrário, o atual prefeito tem dado seguidas mostras do seu caráter elevado e de seus sublimes propósitos para com a cidade e o povo desta ilha. Sua baixa estatura não se reflete em seu espírito, supomos. Seus atos corroboram esta nossa visão. Senão,vejamos.
Foi a sua acurada percepção acerca da administração pública a responsável pela contratação de mais de 700 (setecentos) servidores temporários - ano passado - sabe-se lá com que finalidade. Os maledicentes preferem acusá-lo da nefanda prática do clientelismo. Algo semelhante, os mesmos maldizentes, argumentam a respeito do aluguel de várias dezenas de automóveis, muito deles para uso exclusivo do próprio proprietário. Calúnias! Se tudo isso resultou em benefício eleitoreiro é mera coincidência. Longe de passar pela cabeça do atual edil utilizar o erário para beneficiar seu candidato.
Foram, ademais, a firmeza - e que firmeza! - e o arrojo na condução dos negócios públicos, próprios dos grandes governantes, que o fizeram esconder da população – a ralé – o paradeiro dos mais de R$22.000,000,00 (vinte e dois milhões de reais) que o município arrecadou somente com royalties.
Então, e mais importante, quem pode acusá-lo – como fazem os plantonistas da inveja – de se opor aos mais elementares princípios democráticos??? Qual a pessoa idônea que seja tentada a identificar em algum ato do prefeito que resulte em malefício para esta terra???
É normal – velha novidade – e, diríamos, benfazeja, a prática da retaliação contra os amigos de ontem e adversários de hoje. Ora, demitir os amigos de Haroldo e Zé Antônio é salutar, ainda que tenham excelentes serviços prestados ao município. Afinal, que cidade é a nossa que necessite dos serviços médicos de Dra. Celeste, Dra. Célia ou de Dr. André? E do próprio Zé? Nossos serviços de saúde estão uma tal maravilha que prescinde desses préstimos. Tudo bem que o hospital Antônio Ferraz, recentemente municipalizado, não esteja funcionando tão bem como antes e que a BR406 continue sendo nossa principal casa de saúde, e, que, de vez em quando, faltem remédios ou escasseiem as ordens para exames especializados, isso tudo é muito natural, até porque, o município não tem uma arrecadação assim tão grande...
Praticar a vindita eleitoral faz parte da vida de um grande estadista. É, ou não é, saudável transferir um gari concursado, que trabalha e reside em Diogo Lopes, para prestar serviços na Ilha de Santana??? É, não é, louvável ameaçar de expulsão locatários de próprios municipais???
Outra ação que se anuncia é ainda mais comprovadora do transcendente caráter do atual edil: pretende-se sufocar a existência da Maternidade José Varela. Ora, ora, ora... quanta benemerência!!!
Os difamadores, por certo, denunciariam que o atual e o prefeito cassado/eleito não têm raízes afetivas com esta pobre ilha e que suas ligações com esta terra são apenas comerciais, quando não, francamente de exploração corrupta. Dirão, os caluniadores, que o atual e o prefeito cassado/eleito são uns bostas e que esses merdas não estão nem aí para o futuro de nossa terra e da nossa gente. Calúnias! Calúnias! Calúnias!
Eles não são bostas, não são merdas. São homúnculos. Homúnculos, apenas.
Escrito por Benito Barros às 12h05
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A DERRADEIRA BATALHA DO DUQUE DE CAXIAS
Benise B. Laprand
Com a desculpa de que meus filhos estudaram na França, pediram-me para fazer uma comparação entre o Grupo Escolar Duque de Caxias e as escolas francesas. Ora, como fazer isso ? Impossível ! Seria comparar épocas, tradições, valores, culturas diferentes. Não é justo. Ainda assim, vou tentar. Que me perdoem os leitores porque não tenho vocação para escritora. A veia literária que meu pai foi distribuindo entre os filhos se esgotou logo antes de eu nascer. Depois, teve sete anos para se recuperar, o que explica a caçula jornalista. Bom, vamos ao que interessa. Posso começar comparando a estrutura física das escolas. O Duque era alto, imponente, magnífico. Mas não intimidava. Ao subir aquelas escadarias, éramos imediatamente tomados por um estranho sentimento, misto de respeito e orgulho. Passávamos a fazer parte daquele mundo tão especial, o mundo do saber. As portas e janelas gigantescas, o piso de tábuas, a varanda que dava para a maré, estão cimentados no meu coração. Sim, eu sei que as escolas na França também possuem, em sua maioria, prédios antigos e imponentes. Mas só por fora. Ao entrar ficamos desagradavelmente decepcionados com a baixa estatura dos forros, feitos assim para conservar o calor e economizar energia dos aquecedores. Decepcionante! E os livros ? Nós, alunos do Duque, formávamos vínculos afetivos com os nossos. Eu lembro que sonhava com a filha que teria quando crescesse. Qual seria o nome que daria a ela, hein, qual, qual? Sarita, evidentemente. Adorada Sarita. Morreu antes que eu tivesse idade para ter filhos. Para sempre enterrada nas páginas dos livros distribuídos pelo MEC . O governo francês também distribui livros para seus alunos. Livros de altíssima qualidade educacional. Mas meus filhos- nem ninguém que eu tenha conhecido - nunca formaram vínculos com eles. É claro: Sarita e Pedrinho jamais conheceram a França. É certo que a educação oferecida pela França a seus alunos é muito boa. Meus filhos, ainda no jardim de infância, estudavam alemão. Depois, italiano. Infelizmente, pouco, ou quase nada, lhes ficou na memória, dessas línguas. Mas se engana quem pensa que nós, do Duque, não estudávamos outra língua que não a nacional. Claro que sim ! E de forma muito mais eficaz. Pois quem não fala correta e fluentemente a língua do pê? Estou sendo injusta com a França. Afinal, graças ao estudo do italiano, meus filhos também conheceram e aprenderam a gostar de música clássica através do contato com Vivaldi, compositor italiano. Nós, do Duque, de música clássica conhecíamos apenas Joaquim Osório Duque Estrada e Francisco Manoel da Silva, compositores do Hino Nacional. Mas sabíamos repetir, de cor e salteado, aos gritos, com a mão no peito, nas cerimônias de hasteamento da bandeira, tão complicada e difícil composição. Meus filhos foram levados pelos professores, num de seus passeios escolares, para assistir a um concerto de música clássica no teatro municipal, lá na França. Ora, não tenham inveja. Nós também tínhamos nossos passeios escolares relacionados à música. E, não só como espectadores, mas como verdadeiros atores do espetáculo.
(continua)
Escrito por Benito Barros às 11h53
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(continuação)
De outra feita, meus filhos foram levados pelos conscienciosos professores franceses a visitar uma fazenda aonde tinha sido construído um enorme labirinto de arbustos. Certamente uma tentativa de explicar porque Teseu precisou da ajuda de Ariadne para sair do labirinto, após matar o minotauro. Nós, do Duque, não precisávamos sair da escola para entender os sentimentos dos gregos. Verdadeiros heróis, nossos meninos arriscavam-se ao severo castigo e desciam para explorar os labirintos do porão, infestados de fantasmas que não poderiam mais ser vencidos pela morte, mas, tão somente, pela superação do medo, pela coragem. E por falar em medo, eis aí um sentimento que nossas mães não conheciam. Pelo menos nada parecido ao que eu senti no dia em que fui buscar meus filhos na escola e me deparei com a mesma cercada de bombeiros, policiais, helicópteros sobrevoando... parecia filme. Com o terror instalado no coração, fui informada por um policial que meus filhos, nossas pobres e inocentes crianças, tinham sido retiradas e colocadas no campo de futebol, devido a uma ameaça de bomba na escola. Deu para perceber que eles realmente são eficientes nesses casos, mas eu ainda tremo quando lembro esse dia. Nossas mães não tiveram que passar por isso. Já eu, criança, de tempos em tempos me apavorava com as bombas que teimavam em explodir nas minhas costas. Bombas lançadas por terroristas mirins possuidores de uma pontaria bem mais certeira do que os árabes. Felizmente eram bombas de carrapicho, não matavam. Mas, ai, como doíam ! Perceberam que ainda não falei nas nossas professoras? Nem vou falar: seria covardia com as francesas. Não que lá elas não sejam competentes, são sim!, mas deixam muito a desejar nos quesitos afetividade, compreensão e paciência, coisas que as nossas, do Duque, tinham de sobra. Não citarei minhas lembranças, nem meus remorsos pelas besteiras feitas em sala de aula. Quero apenas deixar o meu mais profundo agradecimento a essas mulheres que construíram a base de minha educação com carinho e extrema competência. Gostaria de dizer ainda que, se me fosse permitido escolher em que escola educar meus filhos, se no Duque ou na França, não tenham dúvida de que escolheria o Duque. Afinal, sobre Vivaldi, eles teriam o resto de suas vidas para conhecer. Já o sonho e a fantasia, tão essenciais a qualquer criança, bem, esses moravam nos porões do Duque. Para finalizar, faço um pedido: que fique registrado nos livros de História, a partir de hoje, mais esse feito do nosso heróico Duque de Caxias – a vitória na impossível batalha entre Macau e a França.
Maceió – 02/2002
Escrito por Benito Barros às 11h51
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da sina dos jasmins
Na rua onde eu cresci cresceu um jasmineiro.
A minha rua e a minha cidade eram só o aroma do jasmineiro.
Que foi feito do meu jasmineiro?
Já não há jasmins em minha cidade e já não é mais a minha cidade.
A minha antiga rua não reconheço.
Da cidade antiga onde cresci nada restou e faz-me chorar
o inesquecível aroma precioso dos jasmins.
Hoje, sereno, não mais me inquieta a sorte daquele jasmineiro
da esquina daquela rua da minha cidade.
A zelosa criança em busca do antigo jasmineiro
descobriu que todos os jasmins refugiaram-se
em tua boca.
Escrito por Benito Barros às 10h14
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Duque - 84 anos
PINÓQUIO
“Animula, vagula, blandula”
(Adriano)
ligam para minha alma
digo-lhes que ela não está
que ela faltou à aula
e não ouviu os conselhos
e que se foi a caminho
da ilha dos prazeres
Horácio Paiva
Cotovelo, madrugada de 18.10.2004
Escrito por Benito Barros às 10h29
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O Duque - 84 anos

Escrito por Benito Barros às 13h18
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A herança do Duque
Isabel Barros Braga
Da infância, as lembranças são as melhores e mais saudosas. De tudo. Do cheiro do bogari enfeitando a Santa Teresinha, invadindo a casa e impregnando, para sempre, os meus sentidos. O mais inesquecível dos perfumes, incluídos os franceses, não lhe chega aos pés. Do gosto da manga “chupada”, comprada em sacas e que, até hoje, nenhuma fruta superou. A banana leite até que tentou, pendurada naquele cacho, no quarto escuro da loja, mas restou, frustrada, em seu segundo lugar.
Dos banhos de chuva, correndo atrás das bicas, até disputar um lugar na melhor, aquela da Sacristia. Eh..., botava “toco” quem, nos comentários pós-chuva, dissesse que ali se banhara. Em bicas baixas, a pequena mão servia como uma espécie de dique que, ao ser transposto, emprestava, aos rostos inocentes, aquele ar de prazer pela caudalosa enxurrada da matéria que valia (vale) ouro. Que o digam os macauenses. Depois, a terra molhada de chuva, coisa raríssima, também concedia seus encantos, aos pequenos:
O jogo de “finca”, onde eram arquitetados incríveis e engenhosos desenhos, quiçá esboços de grandes obras de um futuro artista. Os barquinhos de papel, meio açodados, descendo nos “rios” temporários, carregando sonhos de não sei quantas crianças. Lembranças, saudosistas também, do céu. É até covardia a comparação com qualquer outro de que se tenha notícia: As suas estrelas eram muito mais brilhantes e viviam em pencas, como se disputassem o olhar para a minha cidade. Deitada na rede tinha a impressão de que me pediam para entrar pela janela do quarto. As constelações resplandeciam. Era como se estivessem apenas um degrau acima. Quantas vezes, de olhos fechados, estendia o braço, na certeza de que a minha mão traria um pouco daquela luz. As Três Marias, o “A”, o “7” e o Cruzeiro do Sul. Este, especialmente, povoava o imaginário com viagens mirabolantes, todas, é claro, para o sul. Os satélites. Havia uma lei que os obrigava a incluir, em suas rotas, uma passagem sobre Macau. As estrelas cadentes, também, só caíam ali. Quantos pedidos impossíveis, inalcançáveis, tiveram que ouvir. As fitinhas do “Nosso Senhor do Bonfim” nem eram necessárias, até porque não conseguiriam competir com as esperanças e certezas depositadas em cada “queda” de estrela. Eram tantas que, nas manhãs de domingo, Alagamar se via repleta de estrelas do mar.
E os cometas? Até hoje, não me deram uma explicação plausível, diversa da certeza que trago, por aquele que passou, de madrugada, pela varanda da casa da Benjamin Constant. Era feito de elos de fogo, formando uma grande corrente que, havendo se desgarrado da nave principal, resolveu dar o ar de sua graça, bem ali, sobrevoando o Sindicato. Certamente, por ter ouvido os comentários do Mestre Sapo, naquela Festa no Céu. Bem, o certo é que a noite, em todas as suas nuances, era responsável por um adormecer sereno, feliz, irrecuperável. Ainda mais quando se tinha a certeza de que, ao acordar, era só vestir a saia azul-marinho, pregueada, a blusa branca de cambraia, e ir ao encontro do Duque. Primeiro grande amor. Base de todo o resto. Alicerce de uma mulher construída, em grande parte, pelas lembranças aqui descritas. (continua)
Escrito por Benito Barros às 13h13
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(continuação)
Menina que, nem de longe, imaginava a influência que um Duque teria em sua vida. Não tinha noção da riqueza daqueles dias. A vida passava, nas carteiras geminadas da classe, de forma lúdica, despretensiosa e sem qualquer pressa. As lições eram incutidas nas “cabecinhas de vento”, sem que se apercebessem do seu valor. O Duque era tranqüilo, sem estardalhaços. Não era afeito a regalias, como costumam ser os integrantes da nobreza. Ao contrário, era singelo, humilde. Não chegava a ser franciscano, mas também não ostentava qualquer sintoma das classes abastadas. A sua força interior, essa sim, era riquíssima, incontestável. Por inúmeras vezes foi posta à prova e ninguém, até hoje, conta que tenha se dado mal. Para a menina, a primeira certeza do valor imensurável do Duque veio com a prova de admissão para a Escola, em Natal. O Duque não se fez de rogado. Mostrou toda a sua bagagem e ganhou o passaporte para a cidade grande. No vestibular, então, foi que ele resolveu, mesmo, aparecer. Em um ano em que os estudos foram relegados a um segundo plano, ante a mudança radical operada na vida da, já agora adolescente, pela mudança da cidade grande para a metrópole, não era de se esperar qualquer progresso ou sucesso nas provas. Que nada, o Duque, de mãos dadas com a adolescente, foi, destemido, ao encontro do desconhecido e aterrorizante vestibular. Enfrentou-o de peito aberto, saindo vitorioso na “terrível” batalha que daria início ao futuro como “gente grande”. Provou, o Duque, que a base, o alicerce que construiu naquela menina era forte, à prova de intempéries. Para os que já sabiam do seu poder, aquilo não se constituía em qualquer surpresa, mas, para a adolescente incrédula, ignorante do seu potencial, afigurou-se em uma certeza: a de que era detentora do legado daquele Duque. Riqueza inconteste e infindável. Botija descoberta aos poucos, que continua a verter moedas. Herança de certo Duque que, pasmem, aparecia travestido, com vozes femininas, de Dona Chaguinha, D. Arlete, D. Hilda, Terezinha, Rosário, D. Lourdes, D. Alda, D. Mariazinha. Taí, talvez, uma das maiores lições do Duque: a ausência total de preconceitos. Uma única mágoa tenho do Duque. Nisso, ele, realmente, não foi competente. Uma lição ele não conseguiu me ensinar, em relação a toda Macau. Registro, portanto, aqui, a minha queixa, tomando emprestadas as palavras do poeta, que sintetizam os meus sentimentos, permitindo-me ser, de todo, piegas: “Tu me acostumbraste a todas esas cosas, y tú me enseñaste que son maravillosas. (...) Por eso me pregunto (...) Porque no me enseñaste como se vive sin ti”.
02/2002
Escrito por Benito Barros às 13h12
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