Império da Casqueira


O mar.

 

O verso.

 

Único, inquestionável,

inquebrantável verso.

Verso grande

IMENSO     ENORME     VASTO

qual a cama Patente empanturrada

de delírios infantis.

 

A infância

  mar.

O verdadeiro mar.

O mar pleno

de batalhas e naufrágios.

 

(Naufrágios recorrentes)

 

Desses dias sem porto,

minha bateira margeou

as croas do longe:

 

- Você leu a poesia?

- Eu li.

- Você fez o trabalho?

- Eu fazi.

 

Muitas outras coisas, de lá pra cá,

eu fazi.

Eu fazi muito trabalho.

E di muito, muito, também.

 

Agora eu era um rascunho inacabado,

rastro de giz escuro num quadro-negro.

Escrito por Benito Barros às 12h49
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Criança é caixão! Pense numa criaturazinha perversa, desalmada! Desalmada, sim. Nossa alma se fará mais tarde, medíocre e desalentada, pelos freios e arreios que se nos impõem ao sabor do vai-e-vem dos chicotes. Mas ela cresce desmesurada mesmo é quando a gente, depois de adulto, volta a singrar o mar distante da infância.

Recebi dois comentários sobre o Duque que denunciam bem a crueldade da criança.

O primeiro veio de Recife. “Benito, vê que maldade a minha: é quase instintivo.Quando leio algo sobre a nossa querida D. Lourdes, surge uma vontade imensa de falar aqueles versinhos infantis - sobre a banana sem caroço. Perdão.”

O segundo é ainda mais cruel: fala de uma piscina prometida e nunca construída (crueldade dos adultos) dos vidros quebrados das janelas, e, do “nosso amigo Francisco Leão que fazíamos chorar ao ver todos aqueles que iriam golpeá-lo com carrapichos”

Ora, dizer que D. Lourdes não tinha pescoço, não é lá essa maldade toda – que não nos ouça algum parente – mas usar carrapicho pra sacanear o colega!!!

Lembramo-nos, agora, de uma ameaça que fazíamos aos desafetos: quando morresse, a gente vinha, à noite, contar as pregas do fela com... uma agulha!

Não estou dizendo?! Criança é caixão!

Crianças sadias!



Escrito por Benito Barros às 12h25
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Escrito por Benito Barros às 11h32
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Duque - 84 anos

O PECADO DA COVARDIA

Getúlio Vargas M. Barros

Na 2ª edição de Macauísmos, o professor Benito Barros, além de nos desenhar todo o passado de nossa cidade com fatos acontecidos (todos curiosos, quase sempre de cunho policial) em suas ruas, praças, distritos, vilas, etc, nos remete ao doce exercício das recordações através, também, de fotografias. E foi curtindo a foto do velho “Duque de Caxias”, p. 48, que me senti novamente de calças curtas cáqui (não existia bermuda) e camisa branca, tal qual Totó, no belo filme Cinema Paradiso.

Daí em diante começaram a desfilar em minha memória fatos e pessoas que, de uma forma ou de outra, exerceram profunda influência no que hoje sou: um saudosista! E nada mais!

Na página 179 tem uma foto da antiga Rampa do Mercado que, em meados dos anos 60, em uma manhã de muito sol, um cadáver ali estendido, com as vísceras de fora, puxadas pela peixeira de um desafeto, era a atração para os curiosos alunos, e, o desespero das professoras que tentavam conter os desembestados meninos que corriam naquela direção. Cena de minha infância. Cena de minha cidade, de tantos valentões (à custa de muita cachaça nas Quatro Bocas). Homens rudes, fugitivos da morte na seca em busca de vida nas salinas que, em sua maioria, terminavam por matá-los! A foto do Grupo Escolar (comme il‘était), me aviva também a saudade e o carinho das minhas professoras. De dona Chaguinha - continuidade do clã de educadoras iniciado por dona Anaíde - à Vera (professora do 5º ano) quando deixei o grupo escolar para prestar exame de admissão no Marista, passando por Dona Rosarinho, mãe de minha maior amiga até hoje, Regina Barros; além de Dona Lourdes Ferreira - boníssima e eterna diretora - e Dona Alda, que, se não me engano, ainda leciona!

Lembrei-me de meus colegas, Aldo Seixas, com suas brincadeiras sempre maliciosas; Damião (que hoje está na Cosern), Haroldo Martins, companheiro pela vida afora, Francisco de Raimundinho, Paulo de Dona Ivone (também ex-professora). Saudade das “Branquinhas”, duas irmãs caladas que moravam na rua da Frente. Saudade de Fat... a mais bela da turma e, principalmente, de... (não recordo o nome, mas lembro-me que morava no início da Frei Miguelinho) que,  no 5º ano primário, me deixou alucinado ao vê-la em cima de um jipe sem capota, em um comício, com sua curta saia verde da ala-moça! Que coxas! Que delírio! (a saia azul-marinho plissada – farda feminina do Duque – não me permitia a visão completa do que minha fértil e sacana imaginação me propiciava).

            Por conta desse alumbramento foi que fiz minha primeira comunhão clandestinamente!

            Explico.  Aproveitando uma “confissão comunitária” no centro social PIO XI, entrei na fila de comunhão e “CRAU”! Depois, foi só ir à livraria de Seu Manezinho, comprar uns santinhos e comemorar. Obviamente, para tristeza de Dona Teresinha (também ex-professora do Duque) que me queria feito Benício, primogênito dos Barros, nas bodas de Monsenhor Honório, em plena praça da Conceição, ao meio-dia, sol a pino, de vela comprida na mão, calça e camisa de linho engomadas, sapatos lustrosos, e cabelo cortado por Seu Déo, no modelo “príncipe Danilo”. Tão sexy, meu Deus, tão sexy! Pois o corte lembrava, e muito, as genitálias e pelos pubianos das “moças” que aparecem hoje em dia nas revistas masculinas. Ou seja: máquina zero nas beiradas e uma trunfinha de nada, no meio!

            Afora isso, tinha medo de me confessar a Padre Penha ou Padre Natal. Pois havia o medo do castigo divino em represália aos meus maiores pecados! E o que eu achava mais terrível e inconfessável era o pecado da covardia! Afinal, eram cinco contra um e o pensamento na ala-moça de monsenhor Walfredo Gurgel!

Recife – 02/2002



Escrito por Benito Barros às 11h28
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84 anos do Duque

 

Exemplo senil da “terra do já teve”, o Duque teima desfigurado. Um “Comandante Martinni” na Augusto Severo.

Já recordei em outros momentos os nomes preciosos de todas as professoras do nosso tempo, por isso recordo aqui apenas a imponente figura de D. Lourdes (Uda, para os familiares) do meu 3º ano. Quem não lembra das fantásticas cocadas que ela vendia e eram feitas por D. Quinha, sua irmã mais velha?

Na realidade, hoje eu só quero mesmo é recordar um acontecido.

D. Lourdes perguntou a Francisquinho de Nenezinho:

- Rê-a-rá tê-ó~tó?

Francisquinho não titubeou:

- Ga-bi-ru.



Escrito por Benito Barros às 15h56
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Apesar de discordar em alguns aspectos, reproduzo, na íntegra, a mensagem que recebi do companheiro Adalgoberto Monteiro.

MACAU UMA CIDADE QUASE GAY!

Especialmente no mundo da política/ Esta cidade parece ter sido presenteada./ Numa inclinação que é vista sem crítica,/ Onde ele tem o seu e ela a sua namorada!/ Algo tão flagrantemente reconhecido, / Que há até mesmo os que passeiam de mãos dadas./ Beijos ao nascer do dia só para os atrevidos,/ Nos becos, nas pontes e em algumas quebradas./ A real é que, por aqui, o sangue gay flui abundantemente,/ E entre os políticos é ainda mais natural./ Tem-se a impressão de ser um recurso permanente,/ Para ser aceito em um processo eleitoral./ Assim vivem nesta Sodoma Nordestina,/ E acredito que Gomorra teria vergonha de existir./ Onde os enlaces durante os pleitos são como propina,/ Mas bem poucos têm a coragem de resistir.../ Chegou-se ao nível tal a homossexualidade,/ Que não se torna motivo para depreciar um candidato./ Alguns até fazem troças com excentricidade,/Apenas como auto-promoção ou facilitando um contato.../ As provocações entre os partidos são quase libidinosas,/ Anjos e demônios  espetando-se publicamente./ E como resultado produzem paródias fabulosas,/ Que se constituirão em arquivos permanentes./ bPor essas e outras aqui encerro a minha história, / E anuncio em versos, apenas o que até o momento eu já sei./ Pois se juntarmos tudo o que está na memória, / Poder-se-á dizer com certeza: Macau uma cidade quase gay!

Macau, 24 de janeiro de 2006



Escrito por Benito Barros às 10h46
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Da eleição

 

Depois de vendida por 11 (onze) dinheiros, Macau espera por um milagre que possa vir de um Judiciário sério. Sonha, Margarida!

Podres poderes.

....

Por aqui se dá notícia de uma nova forma de fraude eleitoral: o indivíduo fotografa com o celular o voto dado e depois recebe a recompensa. Quem se vende não está nem aí para a possibilidade de modificar o voto depois de fotografá-lo,  daí o corruptor “confiar” na “honestidade” do corrompido.

....

Outro fato interessante: dava para identificar o voto pelo barulho da máquina de votar ou pelo movimento do braço do eleitor quando digitava o número do candidato, já que os números dos candidatos eram bastante diversos – 11(algarismo repetido)  e 40.(teclas distantes)

...

Não é de estranhar o resultado dessa eleição.  A municipalidade foi utilizada, durante todo o ano passado, para fins eleitoreiros. Foram mais de 700 (setecentas) pessoas contratadas, além das centenas de cargos comissionados. Vale lembrar que o atual “governo” inflacionou o número de secretarias (tem até Secretaria de Justiça!).e, por conseguinte, o números de cargos comissionados. Falam, ainda, em mais de 80 (oitenta) carros alugados a preços exorbitantes. Para quê? Foram distribuídas, mensalmente, 2.000 (duas mil) feiras. Isso sem contar um sem-número de outras benesses distribuídas à farta. Segundo dizem, a atual ‘administração’ aboliu a palavra não do linguajar burocrático: pediu, levou.

...

Não sei bem a razão, mas tenho a vaga impressão de que a coisa aqui lembra o bordão de Peixe Podre: “Aqui é o Peixe Podre de Macau: Comprou, pagou, comeu, tomou no rabo. Quem não morre, ou fica descabaçado ou fica arrombado.”



Escrito por Benito Barros às 13h26
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dos pleitos em geral

 

Em meu quintal, manchas.

Em minha soleira, nódoas.

 

Tem sido assim minha vida: a cada passo um retorno mais torpe que a ida.

Mas ando e corro e fujo do porvir porco, do ontem sujo

e no presente nenhum refúgio.

Não me perguntes, viandante amigo, para onde.

Fujamos, apenas.

 

O mundo é pequeno, eu sei. Mas sei que longe, bem longe,

onde um dia nos encontrarem, seremos fantasmas apenas.

Sem nódoas, sem manchas, imaculados seremos.

 

Vem comigo, viandante amigo,

oferto-te o braço purificador do vinho, e, então,

sem nódoas, sem manchas, imaculados seremos.

 

Vem comigo, viandante amigo,

viajemos ao salutar convívio dos porcos, e, então,

sem nódoas, sem manchas, imaculados seremos.

 

Vem comigo, viandante amigo,

voltemos ao benfazejo convívio dos homens, e, então,

sem nódoas, sem manchas, imaculados fôramos.

Escrito por Benito Barros às 09h47
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música preciosa

 

Vesti a idéia do mundo insuportável

- vestes de chita vulgar.

Se hoje me mato, não me move essa estupidez.

Mato-me ciente da MINHA estupidez.

 

Devo dizer adeus? A quem?

Todo suicida só deve se despedir de si mesmo,

e, de mim, me despediria jamais.

Falta-me a essência da miséria.

Busquei-lhe o âmago de todas as maneiras

contudo até ontem fui incapaz

de atingir-lhe o coração.

 

A vida queima

a gordura, músculos e cartilagens

do coração

- os ossos resistem.

...

Que me perdoem os que o praticam:

não gosto dos suicídios

barulhentos.

 

Para quê tanto barulho?

Grita-se para a surdez!

É necessário paz, serenidade

para suicidar com perfeição.

Nada de barulhos ou destemperos.

 

No âmago da miséria recupero

o terno aconchego dos pesadelos,

dos abismos oceânicos.

Nem rumores nem claridades.

Na alma da miséria a luz incomoda e fere.

A luz é frívola.

 

Silêncio! Silêncio, hipócritas!

Deixem-me ouvir a insensatez

- música preciosa...



Escrito por Benito Barros às 06h16
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o barco insensato

 

Segue, barco!

 

Segue o meu barco

ao sabor das águas que o prendem.

 

Segue, meu barco... rasteja

pelo oceano que te proíbe

voar.

 

Não tem o perfil ruidoso dos galeões piratas

nem o afã de terra firme da Nau Catarineta.

É um barco pobre, meu barco.

Um barco pobre, de vela preta.

 

Negra, negra, negra vela,

vela, onde estejas,

vela com desvelo

esse velho mar que a nós nos sustém

em tontas, pueris pelejas.

 

Vai, barco de vela negra,

por este mar solitário.

Grava teu rastro no mar

se ele não te permite

voar.

 

De tanto tentar voar

(sonho de todo barco)

contra a vontade das águas

certamente afundará.

 

Ide, então, peixes e monstros,

inquilinos do fundo mar,

velai nas profundezas escuras

meu perdido, insano barco

no tanto querer

voar.

 

Minha alma é um barco de vela negra.



Escrito por Benito Barros às 07h25
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Companheiro João Gatinho

João Gatinho pegou o beco, mas, antes de dobrar a esquina, ele caminhou muito e viveu muito mais. Farras homéricas, frases inesquecíveis.

“Eu tava bêbado? Não voga!”

“Sou rico. Tou nem aí!”

“É pra se lascar, é pra se foder!”

“Menino, tem um leitãozinho assado? Ah, esta porrrra não  tem nada?!”

Companheiro João Gatinho, obrigado pela cerveja e pelo cigarro que você deixou pra gente. Olha, se você não se demorar muito em algum bar que deve ter pelo caminho, talvez ainda alcance o poeta Zé Vieira

Eu vejo, em minhas lágrimas, o encontro dos três: você, Zé Vieira e papai.

Não queiram notícias de Macau, não  vale a pena. Deixem esse sofrer só para gente aqui.

Divirtam-se. Vocês merecem.

Adeus, companheiro.



Escrito por Benito Barros às 07h22
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A rataria continuará se lambuzando no mel do erário.



Escrito por Benito Barros às 18h40
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lusco-fusco

 

Um querer estranho e doentio,

feito mormaço

de recente chuva,

suplicia a insônia.

 

A neblina e a solidão,

sorvo-as, aperitivos

da  madrugada.

 

 (No caos, o infinito

carangueja)

O estro... Ébria estrela.

 

Luz tardo acalanto

no convés do escuro

prematurando a aurora.

 

Amanhecer de sol tanto

a fazer-se escuridão.

Eterna noite frutescente

igual terra, tal útero.

 

Teu sono, meus sonhos, por sêmen

Escrito por Benito Barros às 05h01
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