Império da Casqueira


nesses momentos

 

Eis meu único remédio

para esses momentos de lucidez suicida:

 

a nuvem vive eternamente no olhar.

Da pedra pouco ou nada sobrevive.

 

E, se sou nuvem e pedra,

por que  perder tempo

pensando na vida?!

 

Então, ávido pelo desviado tormento,

as gamboas da incerteza renovam-me

o peito encharcado de esquecimento.

Escrito por Benito Barros às 12h22
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Cidade insone

A terrível vigília contra a compra de votos. Uma verdadeira arenga de gatos contra, literalmente, ratos.

A rataria anda assanhada na noite macauense ávida pelo queijo municipal.



Escrito por Benito Barros às 12h19
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dos embates

 

o lodo leito alucinado em mexilhões

requer âncoras para nuvens

moluscos sedentos

encrespam-se em luta desigual

 

eu valva

tu valvas

 

ganem estrelas no fundo do oceano

e loucas circunavegam-se no cérebro

na hora da passagem do rei e seu séquito

de raios

a traspassar o tempo ulterior

de nos abandonarmos sargaços.



Escrito por Benito Barros às 07h19
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Triste Macau.

 

Depois de tanto tempo, que lhe resta?

- o pensamento cheio de lembranças,

o coração vazio de esperanças

e um amargo sabor de fim de festa.

Fagundes de Menezes

 

Este é o velho e querido Beco das Quatro Bocas, “as Quatro Bocas da prostituição” de que falava  Aparício Fernandes.

Mulheres valentes vendiam seus corpos mas mantinham intactos os corações e nenhum dinheiro amofinava-lhes o caráter. Nos minúsculos quartos guardavam um mundo de dignidade.

Mas Macau mudou.

A campanha eleitoral descortinou uma outra cidade: a terra das salinas virou terra da corrupção e da venalidade.

Enojam-me os que transformaram minha cidade num imundo prostíbulo de almas, acabrunhante lupanar de espíritos.Os que fizeram de Macau uma ampla avenida das Quatro Bocas da prostituição política. 

 

Alguns personagens da campanha finda:

 

Garibaldi Alves – o senador mostrou a outra cara - veio apadrinhar o candidato malufista.

FV – a grife do meretrício político.

Ex-prefeito Zé Antônio – aprendeu ligeiro a antiga máxima: “Depois do presente a gratidão logo envelhece.”

Haroldo e Ubiratan -  dormirão tranqüilos. Será?!

O povo da Linha e do Maruim – a miséria transformou-o no mais visível e decantado refém da traficância de votos.

Maninho – a melhor dádiva: fez o povo enjoar da banda Grafith.

Os 40 – anuviados sobejos de esperanças.

Eu – com a minha terra, como ela está: triste.

 



Escrito por Benito Barros às 07h14
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O candidato cassado por compra de votos, Flávio Veras, abençoado pelo TSE, desfila impune sua candidatura montado no cavalo (11) da venalidade. Que diabos de judiciário é esse, que permite tamanha aberração?!

Pobre justiça, triste Macau!

....

 

O clima da cidade está carregado. Asseclas de Flávio Veras promovem o terror de todas as formas. Compra acintosa de voto, ameaças verbais, xingamentos, agressões físicas... Triste Macau!



Escrito por Benito Barros às 10h14
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Morro vermelho

 

Na lama,

maçaricos alardeiam

vivências opacas

enquanto o sol sarja os cancros do útero

da aurora.

A pata desconforme do chama-maré urde no azul

o aroma primevo da amanhecença.

 

Um rola-bosta apunhala o torpor

envaginado na angústia

e desinaugura meu jeito de melancolia.

 

Quando a tua lembrança e o agreste dos homens envenenarem

a ilusão,

encorparei as tintas do dia

de lodo, tinteiros e sargaços

para que não fujam às suas sinas de escuridão

e se deleitem mais noturnas.

 

Lucíferes e satanases guardarão os caminhos

da memória.

 

Se a noite não se desfizer

no Pacífico

das deslembranças,

restará a paz

embutida nos ossos

do chamamento do implacável

- último e inevitável chama-maré.

 

Cismo: tudo isso é falso

- o dia, a noite, a morte,

o mar, a vida, a morte.

A morte é falsa.

 

Como prova,

alugarei um guindaste para arrancar o azul

daquele teu sorriso a me impedir de viver

o azul

do Morro Vermelho.

 

Ao fim da tarde, os coqueiros

reverenciam o sol poente

e nuvens paralíticas

- insensíveis à lascívia do mar -

relembram o sempiterno

sinistro silêncio de Deus



Escrito por Benito Barros às 09h23
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Orquestra Petrobras de Guamaré no Teatro Hianto de Almeida, em 17/12/05



Escrito por Benito Barros às 09h20
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entra,

se te apraz

ê

Escrever insano, meu ofício.

 

Escondo-me aqui,

no espaço turvo

prenhe de caos

entre esta pele

e o teu critério.

 

Ensaio fugas,

anseio abrigos,

tento armaduras,

construo mergulhos.

 

Não adianta se esconder,

há sempre um lado devassável,

 

e, pelas brechas espelhadas,

as fendas do curiar alheio.



Escrito por Benito Barros às 11h17
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esmola de sol

Ao lento abrir da boca da noite,

na calçada da esquina de um beco, um menino.

Um menino triste.

Um menino triste masca chiclete.

Não há graça no mascar chiclete.

Na esquina do beco sórdido,

a luz a ferir a cena é uma esmola de sol.

 

O menino talvez não tenha comida em casa.

O menino talvez não tenha carinho em casa.

O menino talvez não tenha futuro em casa.

O menino talvez não tenha comida, carinho, futuro.

O menino talvez não tenha.

O menino talvez

 

O olhar do menino sem futuro,

da esquina do beco sórdido,

manso refugia-se no distante

levando consigo os derradeiros fragmentos

de minhas espatifadas forças.

 

Os meninos tristes.

Ah! Os meninos tristes

- quem sobrevive a eles?

 

Ao longe,

gastando sobejos da esmola de sol,

uma garça.

 

Por parda,

na lama em lama se ergue.

 

Por parda,

não sabem teu vôo,

no negro do mangue se perde.

 

Alguma alegria

em todo ocaso

será farsa.

 

Sem a melancolia,

o que seria de nós,

parda garça?



Escrito por Benito Barros às 23h46
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